segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O que é conhecido como Deus?

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A questão da existência de Deus é um debate candente na nossa cultura. Deus existe? Se Deus existe, essa existência pode ser demonstrada pela razão? Se a existência de Deus puder ser demonstrada pela razão, essa demonstração segue as regras daquilo que o método científico permite que seja considerado verificável? Questões como essas, e muitas outras do mesmo jaez, podem se expandir a um ponto em que, muitas vezes, se deixarão de lado questões muito mais importantes, tais como “Ao que se chama Deus?” ou “Qual é a natureza de Deus?

Qual é a natureza do Deus a que louvamos, e por que procuramos comprovar Sua existência à nossa atual cultura, tão comprometida em ignorá-Lo? Essa questão pode mostrar sua importância em comparação com uma conhecida gracinha dos ateus, que muitas vezes coloca alguns cristãos na defensiva. Os ateus argumentam: “De todos os deuses que ‘existiram’ e foram cultuados ao longo da história de todas as civilizações, vocês, cristãos, se apegam a apenas mais um conto de fadas de um deus encontrado no texto do Antigo e do Novo Testamento. Então você é ateu em relação a todos esses outros deuses, mas nós, ateus, damos um passo adiante e rechaçamos também esse mito de Abraão”. Esse resumo é conhecido como o argumento de “só mais um deus” popularizado pelo movimento neoateísta.

Esse argumento, por simples que possa parecer, ataca algo muito importante para quem defende a fé cristã, ou seja, a natureza de Deus. O Deus de Abraão, Isaac e Jacó não passaria de outro mito invocado que não difere daqueles deuses das fábulas pagãs que buscam Zeus ou Apolo para conseguir iluminação espiritual? O Deus Trinitário revelado no batismo de Jesus Cristo não seria a mesma entidade que os ídolos venerados nas religiões orientais? A única maneira pela qual o argumento de “só mais um deus” poderia funciona seria se isso realmente fosse verdade, ou seja, se o Deus da fé cristã não passasse de outro “ser” de natureza material esperando que sua lacuna narrativa fosse preenchida pelas mais recentes descobertas do “olho que tudo vê” do método científico.

Acontece que isso não é verdade. O ateu erra quando utiliza esse argumento para supostamente comprovar que a crença num deus está necessariamente ligada a fábulas ancestrais criadas por mentes menores na tentativa de explicar o que a ciência já comprovou ser falso.

A natureza de Deus não é a de um ser que possa ser comparado a outros seres da Criação. Um acontecimento importante registrado nas páginas da Sagrada Escritura demonstra que Deus não é uma entidade criada comparável a Zeus, Apolo ou ao bule voador.

Quando Moisés encontrou Deus na moita em chamas, ele fez a Deus uma pergunta muito simples, mas profundamente importante: o que deveria dizer aos israelitas se lhe perguntassem o nome de Deus? Deus respondeu a Moisés, dizendo “EU SOU O QUE SOU”. Deus disse ainda, “Assim direis aos filhos de Israel: AQUELE QUE É me enviou a vós”. (Êxodo 3:14). O nome de Deus dado a Moisés nos revela que Deus não pode ser comparado a outros seres materiais da Criação. Deus é o “EU SOU”, aquele que é o ser em si, eterno, com existência autônoma, independente, infinito, ´sem início, fim ou mudança, e, o que é mais importante, a fonte de todo e qualquer ato de ser. Deus transcende a ordem natural criada e sustenta Sua própria existência por Seu poder imanente de sustentação.

O argumento do “só mais um deus” não pode ser levado a sério sequer por um instante pelo fato de que erra fundamentalmente na compreensão da majestade de Deus, que revelou a Si mesmo como “EU SOU”.

A Igreja Católica proclamou e protegeu o nome revelado de Deus em declarações como esta, do Primeiro Concílio Vaticano:
“A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber”. (DENZINGER, H., Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, p. 644, 3001).
É importante observar que, por definição, só pode existir um Deus. Só pode existir um ser divino corretamente reconhecido como “AQUELE QUE É”, ou, como diz Santo Anselmo, “Aquele do qual nada maior pode ser imaginado”. Não há rival nem há igual àquele que é o Ser em si esse ipsum, Ser infinito, o Criador de todas as outras coisas, a causa Eficaz, a causa Final de todos os outros seres.

Os neoateístas (entre outros) fazem o que São Paulo descreve nesta famosa passagem do livro dos Romanos:

18 Ἀποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ θεοῦ ἀπ’ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων, 19 διότι τὸ γνωστὸν τοῦ θεοῦ φανερόν ἐστιν ἐν αὐτοῖς, ὁ θεὸς γὰρ ⸃ αὐτοῖς ἐφανέρωσεν. 20 τὰ γὰρ ἀόρατα αὐτοῦ ἀπὸ κτίσεως κόσμου τοῖς ποιήμασιν νοούμενα καθορᾶται, ἥ τε ἀΐδιος αὐτοῦ δύναμις καὶ θειότης, εἰς τὸ εἶναι αὐτοὺς ἀναπολογήτους, 21 διότι γνόντες τὸν θεὸν οὐχ ὡς θεὸν ἐδόξασαν ἢ ηὐχαρίστησαν, ἀλλὰ ἐματαιώθησαν ἐν τοῖς διαλογισμοῖς αὐτῶν καὶ ἐσκοτίσθη ἡ ἀσύνετος αὐτῶν καρδία 22 φάσκοντες εἶναι σοφοὶ ἐμωράνθησαν, 23 καὶ ἤλλαξαν τὴν δόξαν τοῦ ἀφθάρτου θεοῦ ἐν ὁμοιώματι εἰκόνος φθαρτοῦ ἀνθρώπου καὶ πετεινῶν καὶ τετραπόδων καὶ ἑρπετῶν.”

18 A ira de Deus é, pois, revelada do Céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, 19 porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles; Deus, na verdade, revelou a eles 20 Pois, desde a Criação do mundo, Seus atributos invisíveis, seu eterno poder e sua natureza divina têm sido vistos claramente, sendo compreendidos pelas coisas criadas, não tendo esses homens, portanto, [nenhuma] desculpa, 21 porque, conhecedores de Deus, não o glorificaram como Deus nem [Lhe] foram gratos, mas se tornaram fúteis em seu pensamento e seus corações insensatos se escureceram. 22 Professando serem sábios, enlouqueceram, 23 e transformaram a glória do imortal Deus na semelhança de uma imagem de um homem mortal, e de pássaros, e de quadrúpedes, e de répteis.” (Romanos 1:18-23, em tradução minha diretamente do grego koiné)

Deus revelou-Se de numerosas maneiras, de forma que ninguém tem desculpa para negar Sua existência. Deus revelou-Se generosamente pela ordem natural da nossa realidade criada comum, e Ele revelou-Se diretamente a pessoas como Moisés, de forma que pode reunir um povo em torno de Si como testemunha de Sua condição especialmente revelada, o “EU SOU” a que toda existência deve seu louvor.

Apesar da fecundidade de Deus, a humanidade marcada pelo pecado de Adão continua na escuridão de suprimir a existência de seu Criador. Essa supressão ocorre reduzindo Deus a uma entidade criada, depois negligenciando-O a um produto do argumento de “só mais um deus”.

Agora que podemos ver mais claramente que essa manobra é um erro que depende de uma descaracterização fundamental da natureza de Deus, meu argumento apologético deve funcionar para demonstrar a existência de Deus como Ele revelou a Si mesmo. Qualquer coisa menos do que apresentar aos incréus “AQUELE QUE É” pode acabar justificando o erro de identificação que os ateus procuram manter em sua supressão voluntária do conhecimento que os deixa sem desculpa alguma.

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