quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Os neoateus e uma mundivisão de ilusão

Quem procura conhecer a vastíssima literatura publicada pelo movimento neoateísta percebe que surge uma mundivisão diferenciada. Ateus de matrizes variadas como Michael Ruse, Richard Dawkins, Daniel Dennett, Lawrence Krauss, Sean Carroll, Dan Barker, Sam Harris, Alex Rosenberg e o finado Christopher Hitchens apresentaram uma visão definitiva da realidade, que pode ser reconhecida sem dificuldade como a mundivisão (ou para usar um termo caro aos filósofos, Weltanschauung) atéia. Sejam quais forem os matizes presentes na literatura, o quadro cientificista e fisicista da realidade corresponde a considerar estas várias posições filosóficas: a moral é um produto ilusório da nossa história evolutiva; a consciência é uma ilusão criada pelos disparos neurais e por reações bioquímicas do cérebro; o ego e o conceito de pessoalidade também é uma ilusão com a mesma origem física da consciência; a mente é reduzida a funções materiais e acaba desmoronando no vácuo da terminologia cientificista; o livre-arbítrio é uma ilusão porque as ações humanas acabam sendo determinadas pelas leis da natureza que operam sob a superfície do já ilusório conceito de consciência; o “nada” conceptual que deu o pontapé inicial ao “Big Bang” é, na verdade, um “algo” complexo, sendo, pois, possível que “nada” possa vir de “algo” desde que se redefina “nada” como “algo”; e, finalmente, a Matemática e a Lógica são construtos sociais nominalmente criados, passíveis de transformação caso nossa linguagem mude de aplicação quanto a esses campos do conhecimento. Outro elemento importante do aparato ateu é a ilusão reafirmada do projeto da natureza. Segundo o naturalista neodarwinista, a evolução é capaz de explicar por que somos rodeados por um mundo que parece ter sido projetado, mas, na realidade, é aleatório e caótico.

Na verdade, Alex Rosenberg apresenta um resumo conciso da mentalidade dos ateus no livro O Guia da Realidade para o Ateu: aproveitando a vida sem ilusões, pp. 2, 3:
Deus existe? Não.
Qual é a natureza da realidade? Aquela que os físicos disserem que é.
Qual é a finalidade do universo? Nenhuma.
Qual é o sentido da vida? Idem.
Por que estou aqui? Por pura sorte.
Rezar funciona? É claro que não.
A alma existe? Ela é imortal? Está brincando?
Existe o livre-arbítrio? Nem pensar!
O que acontece quando morremos? Tudo continua como de costume, exceto nós.
Qual é a diferença entre o certo e o errado, e entre o bem e o mal? Não existe diferença moral entre eles.
Por que devo agir de maneira moral? Porque faz você se sentir melhor do que se agir de maneira imoral.
Aborto, eutanásia, suicídio, impostos, ajuda internacional ou qualquer coisa de que você não gosta é proibido, permissível ou, às vezes, obrigatório? Vale tudo.
O que é o amor, e como posso encontrá-lo? O amor é a solução de um problema internacional estratégico. Não procure por ele. Ele vai encontrar você quando você precisar.
A história tem algum significado ou propósito? Ela faz muito barulho, mas não significa nada.
O passado humano tem lições para o nosso futuro? Cada vez menos, se é que alguma vez teve, para começar a conversa.
No mesmo livro, Rosenberg prossegue,
“O cientificismo dita uma compreensão completamente darwinista dos seres humanos e da nossa evolução tanto biológica quanto cultural. Porém, isso não nos obriga de forma alguma a pensar na cultura humana como uma programação fixa, ou como algo que está nos nossos genes. Isso significa que, quando se trata de ética, moral e valores, precisamos adotar uma posição impopular que muita gente vai considerar imoral e ímpia…Quem quiser ser cientificista precisa se sentir à vontade com uma certa dose de niilismo.”
Segundo a mundivisão ateísta, tudo é fisicamente reduzido às leis fixas e deterministas da Física, como numa camisa de força, que atuam em todo o campo de uma estrutura darwinista formulada de funcionamento químico e biológico, localizada nos confins do ser humano. Com esse trabalho de base (naturalismo metafísico e cientificismo epistemológico), cada uma das principais facetas da vida humana é anunciada como uma ilusão da natureza. Não existe significado, propósito, projeto, telos nem moral.

Essa interpretação da realidade deve acionar imediatamente o problemático sinal de alerta do pensador crítico.

Vamos nos concentrar no problema do projeto da ordem natural. Francis Crick nos lembrou, numa frase famosa, de que, ao estudar a natureza, devemos saber que nosso objeto de estudo não é de forma alguma projetado, apesar de parecer organizado dessa forma. Mas por que precisamos nos lembrar disso? Por que precisamos nos lembrar de que a ordem natural não é projetada quando nos deparamos com essa realidade? E se a natureza for projetada? E se a “aparência” de projeto realmente for um projeto? Se precisarmos nos convencer constantemente de que os aspectos mais importantes da realidade são ilusões (moral, consciência, pessoalidade, projeto, livre-arbítrio, etc.), talvez a mundivisão que propõe essas afirmações tenha se reduzido explicitamente ao absurdo.

Todas essas supostas descobertas insinuadas pelo clamoroso anti-evangelho do regime neoateu, ou seja, que estamos enclausurados num abismo de ilusões, são, de certa forma, feitas pela realidade do método científico. Devemos nos perguntar se esse método científico não é, também, uma ilusão. Por que o método científico é capaz de se eximir de ser uma mera aparição útil que examina um vácuo de uma afirmação conceptual subjetiva (que esses ateus conseguem entender completamente sem o mais leve reconhecimento de ironia)?

Em vez de nos intimidarmos pela manobra tática de vincular o absurdo à investigação científica, devemos levar essas visões atéias à sua conclusão lógica. Se a “realidade” ao nosso redor não passa de uma miragem, de uma alucinação subjetiva, então não apenas o método científico fica prejudicado, mas também o motivo secular que os ateus guardam com tanto zelo em seus corações. A idolatria da razão e da natureza, no contexto dessa hybris neoatéia, não passa de fantasmas da realização de um desejo inconsciente Nem a razão nem a ciência são capazes de manter nenhum valor de verdade na metafísica e na epistemologias naturalistas seculares. Nossas faculdades cognitivas, por serem produtos de um mecanismo de sobrevivência na natureza, e não um mecanismo de “verdade”, são incapazes de exercer a razão, da qual o método científico é produto. Os empiristas do tipo científico, habilidosos mestres da tática que são, ignoram convenientemente o fato de que os próprios métodos usados para estudar a natureza são produtos da razão, e não na natureza. Em outras palavras, a ciência não pode justificar a si mesma usando o método científico. Do contrário, entra-se eternamente num círculo vicioso hermético. A caixa de ressonância da afirmação fisicista só pode ser útil para quem faz parte desse delírio.

A circularidade da visão atéia é mais ou menos assim: “a Física explica tudo sobre a realidade, o que sabemos porque qualquer coisa que a Física não explica não pode existir na realidade, e sabemos disso porque tudo o que existir em relação à realidade deve ser explicável pela Física, porque a Física explica tudo.”

Considerando essas posições do movimento neoateu, postular o absurdo e, ao mesmo tempo, ridicularizar a existência de Deus com as mesmas ferramentas que, momentos antes, eram retratadas como miragens, e, ao mesmo tempo, criticar as bases cristãs que foram as fontes da razão e do método científico, é, na melhor das hipóteses, um exercício esplêndido de auto-engano.

Defender essa mundivisão atéia naturalista e, ao mesmo tempo, ridicularizar quem ousa sequer questioná-la exemplifica até onde os homens decaídos podem ir para suprimir a verdade com a iniqüidade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O que é conhecido como Deus?

moses-and-the-burning-bush

A questão da existência de Deus é um debate candente na nossa cultura. Deus existe? Se Deus existe, essa existência pode ser demonstrada pela razão? Se a existência de Deus puder ser demonstrada pela razão, essa demonstração segue as regras daquilo que o método científico permite que seja considerado verificável? Questões como essas, e muitas outras do mesmo jaez, podem se expandir a um ponto em que, muitas vezes, se deixarão de lado questões muito mais importantes, tais como “Ao que se chama Deus?” ou “Qual é a natureza de Deus?

Qual é a natureza do Deus a que louvamos, e por que procuramos comprovar Sua existência à nossa atual cultura, tão comprometida em ignorá-Lo? Essa questão pode mostrar sua importância em comparação com uma conhecida gracinha dos ateus, que muitas vezes coloca alguns cristãos na defensiva. Os ateus argumentam: “De todos os deuses que ‘existiram’ e foram cultuados ao longo da história de todas as civilizações, vocês, cristãos, se apegam a apenas mais um conto de fadas de um deus encontrado no texto do Antigo e do Novo Testamento. Então você é ateu em relação a todos esses outros deuses, mas nós, ateus, damos um passo adiante e rechaçamos também esse mito de Abraão”. Esse resumo é conhecido como o argumento de “só mais um deus” popularizado pelo movimento neoateísta.

Esse argumento, por simples que possa parecer, ataca algo muito importante para quem defende a fé cristã, ou seja, a natureza de Deus. O Deus de Abraão, Isaac e Jacó não passaria de outro mito invocado que não difere daqueles deuses das fábulas pagãs que buscam Zeus ou Apolo para conseguir iluminação espiritual? O Deus Trinitário revelado no batismo de Jesus Cristo não seria a mesma entidade que os ídolos venerados nas religiões orientais? A única maneira pela qual o argumento de “só mais um deus” poderia funciona seria se isso realmente fosse verdade, ou seja, se o Deus da fé cristã não passasse de outro “ser” de natureza material esperando que sua lacuna narrativa fosse preenchida pelas mais recentes descobertas do “olho que tudo vê” do método científico.

Acontece que isso não é verdade. O ateu erra quando utiliza esse argumento para supostamente comprovar que a crença num deus está necessariamente ligada a fábulas ancestrais criadas por mentes menores na tentativa de explicar o que a ciência já comprovou ser falso.

A natureza de Deus não é a de um ser que possa ser comparado a outros seres da Criação. Um acontecimento importante registrado nas páginas da Sagrada Escritura demonstra que Deus não é uma entidade criada comparável a Zeus, Apolo ou ao bule voador.

Quando Moisés encontrou Deus na moita em chamas, ele fez a Deus uma pergunta muito simples, mas profundamente importante: o que deveria dizer aos israelitas se lhe perguntassem o nome de Deus? Deus respondeu a Moisés, dizendo “EU SOU O QUE SOU”. Deus disse ainda, “Assim direis aos filhos de Israel: AQUELE QUE É me enviou a vós”. (Êxodo 3:14). O nome de Deus dado a Moisés nos revela que Deus não pode ser comparado a outros seres materiais da Criação. Deus é o “EU SOU”, aquele que é o ser em si, eterno, com existência autônoma, independente, infinito, ´sem início, fim ou mudança, e, o que é mais importante, a fonte de todo e qualquer ato de ser. Deus transcende a ordem natural criada e sustenta Sua própria existência por Seu poder imanente de sustentação.

O argumento do “só mais um deus” não pode ser levado a sério sequer por um instante pelo fato de que erra fundamentalmente na compreensão da majestade de Deus, que revelou a Si mesmo como “EU SOU”.

A Igreja Católica proclamou e protegeu o nome revelado de Deus em declarações como esta, do Primeiro Concílio Vaticano:
“A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber”. (DENZINGER, H., Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, p. 644, 3001).
É importante observar que, por definição, só pode existir um Deus. Só pode existir um ser divino corretamente reconhecido como “AQUELE QUE É”, ou, como diz Santo Anselmo, “Aquele do qual nada maior pode ser imaginado”. Não há rival nem há igual àquele que é o Ser em si esse ipsum, Ser infinito, o Criador de todas as outras coisas, a causa Eficaz, a causa Final de todos os outros seres.

Os neoateístas (entre outros) fazem o que São Paulo descreve nesta famosa passagem do livro dos Romanos:

18 Ἀποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ θεοῦ ἀπ’ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων, 19 διότι τὸ γνωστὸν τοῦ θεοῦ φανερόν ἐστιν ἐν αὐτοῖς, ὁ θεὸς γὰρ ⸃ αὐτοῖς ἐφανέρωσεν. 20 τὰ γὰρ ἀόρατα αὐτοῦ ἀπὸ κτίσεως κόσμου τοῖς ποιήμασιν νοούμενα καθορᾶται, ἥ τε ἀΐδιος αὐτοῦ δύναμις καὶ θειότης, εἰς τὸ εἶναι αὐτοὺς ἀναπολογήτους, 21 διότι γνόντες τὸν θεὸν οὐχ ὡς θεὸν ἐδόξασαν ἢ ηὐχαρίστησαν, ἀλλὰ ἐματαιώθησαν ἐν τοῖς διαλογισμοῖς αὐτῶν καὶ ἐσκοτίσθη ἡ ἀσύνετος αὐτῶν καρδία 22 φάσκοντες εἶναι σοφοὶ ἐμωράνθησαν, 23 καὶ ἤλλαξαν τὴν δόξαν τοῦ ἀφθάρτου θεοῦ ἐν ὁμοιώματι εἰκόνος φθαρτοῦ ἀνθρώπου καὶ πετεινῶν καὶ τετραπόδων καὶ ἑρπετῶν.”

18 A ira de Deus é, pois, revelada do Céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, 19 porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles; Deus, na verdade, revelou a eles 20 Pois, desde a Criação do mundo, Seus atributos invisíveis, seu eterno poder e sua natureza divina têm sido vistos claramente, sendo compreendidos pelas coisas criadas, não tendo esses homens, portanto, [nenhuma] desculpa, 21 porque, conhecedores de Deus, não o glorificaram como Deus nem [Lhe] foram gratos, mas se tornaram fúteis em seu pensamento e seus corações insensatos se escureceram. 22 Professando serem sábios, enlouqueceram, 23 e transformaram a glória do imortal Deus na semelhança de uma imagem de um homem mortal, e de pássaros, e de quadrúpedes, e de répteis.” (Romanos 1:18-23, em tradução minha diretamente do grego koiné)

Deus revelou-Se de numerosas maneiras, de forma que ninguém tem desculpa para negar Sua existência. Deus revelou-Se generosamente pela ordem natural da nossa realidade criada comum, e Ele revelou-Se diretamente a pessoas como Moisés, de forma que pode reunir um povo em torno de Si como testemunha de Sua condição especialmente revelada, o “EU SOU” a que toda existência deve seu louvor.

Apesar da fecundidade de Deus, a humanidade marcada pelo pecado de Adão continua na escuridão de suprimir a existência de seu Criador. Essa supressão ocorre reduzindo Deus a uma entidade criada, depois negligenciando-O a um produto do argumento de “só mais um deus”.

Agora que podemos ver mais claramente que essa manobra é um erro que depende de uma descaracterização fundamental da natureza de Deus, meu argumento apologético deve funcionar para demonstrar a existência de Deus como Ele revelou a Si mesmo. Qualquer coisa menos do que apresentar aos incréus “AQUELE QUE É” pode acabar justificando o erro de identificação que os ateus procuram manter em sua supressão voluntária do conhecimento que os deixa sem desculpa alguma.