domingo, 8 de janeiro de 2017

‘Black Mirror’ tenta, mas não consegue, criar o Paraíso na Terra

A série ‘Black Mirror’ da Netflix apresenta um ponto de vista sóbrio sobre o tipo de salvação que as pessoas procuram quando não têm mais razão para acreditar em Deus.

ALERTA DE SPOILER DO 4º EPISÓDIO DA 3ª TEMPORADA DE ‘BLACK MIRROR’

Finais agridoces são caracterizados por uma noção superficial de perda que dá lugar a uma noção de "bem maior". Como se chamaria um tipo oposto de resolução para uma história? Eu não sei se existe um termo para isso, mas valeria a pena inventá-lo para o quarto episódio da terceira temporada da série "Black Mirror".

“San Junipero” começa com uma jovem chamada Yorkie (interpretada por Mackenzie Davis) andando sem rumo pelas ruas da cidade do sul da Califórnia que dá nome ao episódio. Numa boate, Yorkie é abordada por uma das freqüentadoras vestida num estilo "mais anos oitenta do que os anos oitenta", Kelly (interpretada por Gugu Mbatha-Raw). Tentando dar um perdido num sujeito inconveniente, a moça conta uma mentira grossa sobre Yorkie, dizendo que é uma amiga que só tem mais alguns meses de vida.

Acontece que a armação de Kelly não era tão inverossímil assim. San Junipero é uma simulação futurista de computador preenchida principalmente pelo upload das consciências de pessoas que já morreram, sendo uma minoria delas os idosos doentes, que só podem fazer cinco horas de visita por semana. As duas mulheres aparentemente jovens se encaixam na última categoria: Kelly é, na verdade, a que está sofrendo de uma doença terminal, e Yorkie está em coma há décadas por causa de um acidente de automóvel causado indiretamente quando ela "saiu do armário", desagradando seus pais.


Together Forever… Na Internet

As duas mulheres se apaixonam e Kelly visita Yorkie no mundo real, casando-se com ela para autorizar a eutanásia da mulher em coma, permitindo que ela se torne uma moradora permanente do paraíso virtual. Porém, a alegria delas é estragada por uma diferença de opinião sobre o futuro. Yorkie passou a amar o mundo simulado, mas Kelly planeja morrer naturalmente por causa de uma promessa que fez ao seu marido, que escolheu não fazer a “passagem” para San Junipero em virtude de sua crença religiosa (que não era a mesma de Kelly) e do desejo de estar com sua filha, que morrera antes da criação dessa tecnologia de "vida após a morte".

O episódio termina com uma montagem ao som da música “Heaven Is a Place On Earth”, de Belinda Carlisle, tão adequada que parece que os roteiristas construíram todo o episódio em torno dela.


Ooh, baby, do you know what that’s worth?
Ooh heaven is a place on earth
They say in heaven love comes first
We’ll make heaven a place on earth

Um líquido percorre um tubo transparente ligado a Kelly, que decidiu realizar a eutanásia e viver em San Junipero.

In this world we’re just beginning
To understand the miracle of living
Baby I was afraid before
But I’m not afraid anymore.

Agora Kelly chegou, e ela e Yorkie podem ser vistas aproveitando sua lua-de-mel eterna.


Eu existo para me fazer feliz

Muitos artigos que tecem elogios rasgados ao episódio nos levam a crer que as mulheres foram salvas e poderão viver felizes para todo o sempre. O amor a tudo vence nesta obra televisiva cheia de esperança e espantosamente humana. Até o nome “San Junipero” faz referência a São Junípero Serra, frade franciscano catalão recém-canonizado por seu trabalho de levar o máximo possível de almas de índios americanos para a salvação, e o episódio batizado com seu nome apresenta uma perspectiva sóbria do tipo de salvação pelo qual as pessoas podem torcer quando não há mais razão para crer em Deus.

Mesmo sem o recurso tecnológico de fazer o upload da consciência, ainda encontram-se presentes os impulsos doces mas niilistas que podem emprestar a um mundo simulado ares de salvação da Humanidade. Para Yorkie e Kelly (ou qualquer outro par lésbico, por falar nisso), a possibilidade de gerar filhos é igualmente inexistente em princípio, tanto em San Junipero quanto em qualquer outro lugar.

Mas não é apenas uma questão de homossexualismo; a lógica do "casamento" entre pessoas do mesmo sexo tem sido enxertada há décadas no casamento entre pessoas de sexos opostos. Ao passo que o casamento na nossa sociedade sempre foi um conjunto de obrigações perante pessoas no passado, no futuro e no presente, agora ele passou a se resumir ao amor: duas (ou mais?) pessoas se curtindo num relacionamento que elas podem terminar a qualquer momento. Como, então, justificar que se proíba duas pessoas que se gostam de se casar, seja qual for seu sexo?

Portanto, a relação homossexual e a relação heterossexual contraceptiva de desfrute mútuo podem ser vistas como um microcosmo do mundo paradisíaco de San Junipero: a existência delas não é justificada por nenhuma finalidade criada, mas sim pela filosofia moral de que a matéria, a consciência e a existência devem ser fundidas e reorganizadas para maximizar o desfrute individual. mesmo que exista a opção de ter filhos em San Junipero, ela existiria da mesma forma que existe a adoção por gays no mundo real: algo, como um escolha de consumo, que é um meio para satisfazer desejos, não um fim em si mesmo.


Eu não quero me libertar, eu quero me enterrar.

Matrioska
Matrioshkas
A canonização de Serra não ficou livre de polêmicas. Sua busca obstinada pelo bem espiritual dos povos indígenas da Califórnia implicava logicamente a supressão da cultura deles, que não era cristã.

No mundo de “Black Mirror”, as coisas não são tão diferentes: a antiga ordem moral serve apenas para impedir que as pessoas se divirtam, como, por exemplo, a reprovação do homossexualismo de Yorkie por sua família e sua negação da autorização da “transição” dela para San Junipero. Esses bloqueios culturais atrapalham a nova forma de salvação da humanidade, ergo devem ser suprimidos, no melhor espírito do São Junípero Serra original.

Mas o que o nome com que a simulação foi batizada procurava, como procura a maioria das outras pessoas profundamente religiosas, era a transcendência, a libertação do nosso universo limitado e a comunhão com o que quer que paire acima dele. Mesmo os bilionários da tecnologia, que não têm religião, já estão procurando maneiras de se libertar da simulação de uma maneira muito mais literal (isso lembra um dos argumentos pela existência de Deus: "Qualquer coisa que exista fora da nossa “simulação” pode ser conceptualmente idêntica ao Absoluto").

As personagens principais aparentemente triunfantes de “San Junipero” buscavam o oposto, ou seja, descer um nível a mais para dentro da matrioshka. Yorkie e Kelly não encontraram a libertação. Usando os mesmos princípios que esperam que sigamos nos dias de hoje, elas chegaram a uma maneira sustentável de permanecer ignorantes e indiferentes. O motivo disso é que a libertação não é uma viagem despreocupada de auto-realização. A libertação dói, e muito.