quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Canções sobre Amor (1) - Ruby’s Arms, Tom Waits

A maioria das canções de amor é lixo puro. A culpa não é especificamente das canções de amor, mas elas mais ou menos se encaixam na famosa Lei de Sturgeon, ou seja, de que 90% de qualquer coisa consistem em lixo. A mesma lei vale para toda produção artística: romances, filmes, programas de TV, quadros... faz muito tempo que o mundo é inundado com produtos baratos e descartáveis que somos obrigados a peneirar para encontrar aquele raríssimo percentil onde moram os clássicos eternos. Este meu artigo (e, a rigor, muitos dos artigos daqui em diante sobre o assunto) procura destacar essas canções que merecem respeito por “acertarem na mão”.

Para começar, é importante fazer uma distinção entre “canções de amor” e “canções sobre amor”. Uma canção de amor pertence ao gênero literário de “romance”: na maior parte das vezes, ela é acachapantemente romântica, cumpre sua função por meio de clichês e banalidades, e aproveita temas e tropos tradicionalíssimos. Muitas vezes elas se caracterizam por refrões extremamente sentimentais e circunstâncias banais que envolvem subornos, gestos estereotipados, promessas e quejandos. Por outro lado, no caso das canções tristes de amor, elas se caracterizam pela lamentação da ausência de alguns sentimentos e demonstrações de afeto, perda da confiança e do respeito, falta de atenção ou de compromisso (sim, estou falando do maldito gênero “sofrência” que assola os ouvidos brasileiros hoje em dia). Algumas dessas canções tem um encanto simples e um apelo clássico, mas o lugar de uma porcentagem gigantesca delas é a lata do lixo, com todas as outras besteiras de Dia dos Namorados, cafetinando desbragadamente a pior mercantilização do romance, transformando o que é belo em lixo de produção em massa e venda fácil. Elas cantarolam com doçura ou açoitam nossos ouvidos com trivialidades, deixando no ouvinte mais criterioso a sensação de ter comido uma quantidade absurda de açúcar. As muitas falhas da “canção de amor” média refletem as falhas da maioria dos produtos musicais (não se esqueçam da Lei de Sturgeon): composições insossas, arranjos cansativos e chatos e, o que é pior, letras abomináveis.

As canções sobre amor, por outro lado, são canções que exploram a experiência emocional do amor e a complexidade dos relacionamentos de maneira mais sofisticada e menos óbvia. Elas lançam mão da sutileza e de vinhetas escolhidas a dedo e expressas de maneira poética. Elas mostram em vez de contar, funcionando da mesma maneira que a poesia, ou seja, não são excessivamente explícitas e, portanto, não roubam do leitor/ouvinte o prazer secreto de interpretar o significado e deixam um bom espaço para a contemplação do contexto da canção e, a rigor, do “eu lírico”. As melhores canções sobre amor sequer usam a palavra “amor”, encontrando, de fato, outros meios de expressão, meios mais dissimulados de se comunicar, aludindo ao amor e insinuando-o, em vez de simplesmente jogá-lo na cara de quem ouve/lê.

Da mesma forma, as melhores canções sobre sexo funcionam de maneira semelhante. Muitas vezes, elas sequer mencionam o sexo, mas mostram através de vinhetas como o ato reverbera na vida das pessoas e como sua expressão e os sentimentos a ele relacionados podem residir em objetos, espaços e lugares, não apenas no vulgarizado “coração”, na beleza do corpo, nem na pálida e ilusória “alma”. Com isso não quero dizer que uma ótima canção sobre amor ou sexo não possa falar do coração, do corpo ou da alma, ou mesmo (por falar nisso) usar as palavras “amor” ou sexo, mas isso cria um contexto e uma modulação em que o poder da palavra é amplificado pela poderosa lente da realíssima e originalíssima emoção expressa. Não é um atalho barato para o significado, nem um significante capenga da intenção da canção, nem um lema repetitivo que nos conduz à submissão emocional, ou nos dá uma “onda” doce barata; o objetivo é nos dar um soco na boca do estômago quando já estamos com os olhos rasos d’água no espaço emocional que a canção criou ao nosso redor, uma história muito verdadeira sobre emoções muito verdadeiras.

Essas distinções sobre o lugar-comum e a qualidade são tão antigas quanto a música e a poesia. Os antigos conheciam muito bem essa diferença, e o soneto 130 de Guilherme Balançalança (vulgo William Shakespeare), “Os olhos de meu amor nada têm do brilho do sol”, caga em cima de todos os clichês de merda da sua época, além de ser um reconhecimento muito bem-vindo de que a beleza tem muitas formas. E, assim como Shakespeare, boa parte dos melhores textos sobre o amor se alicerçam na experiência pessoal. O ditado “escreva sobre o que você conhece” se aplica especialmente a esse gênero, e apenas os gênios são capazes de escrever de uma maneira profundamente impactante sobre aquilo que desconhecem.

Naturalmente, nada disso que escrevi até agora quer dizer que não seja possível curtir nada das produções mais medíocres do gênero. Um Big Mac pode ser uma delícia e, às vezes, as canções mais ridiculamente sentimentais e simplistas podem nos emocionar profundamente e “bater onde dói”. Da mesma forma, há pouca concordância sobre onde estabelecer a fronteira entre a arte e um mero produto, entre a obra-prima e algo que “força a barra”, e o gosto é um treco que varia demais. Porém, pelo que possa valer a fina arte da crítica, se a estética for algo passível de julgamento objetivo (e Roger Scruton mostra que é), se pudermos traçar uma distinção entre o excelente e o ruim com base na técnica, originalidade, sutileza e quejandas (e eu acredito piamente que fazer isso é possível em todas as artes), então podemos reconhecer e prestar o devido respeito às obras que se destacam adas demais. Nesse sentido, não venho para pôr uma pá de cal sobre as canções de amor, e sim para louvá-las (as boas), quer dizer, como eu as vejo. Existem toneladas de artigos e livros por aí dedicados a enumerar as piores canções de amor de todos os tempos, portanto o amável leitor não precisa procurar muito para alimentar seu demônio interior. Não tenho interesse em detonar o que outras pessoas podem ter em alta conta.

Portanto, vamos exaltar a primeira canção desta série: Ruby’s Arms, de Tom Waits, do seu disco Heart Attack and Vine, de 1981. Eis a letra e o vídeo:




I will leave behind all of my clothes I wore when I was with you.
All I need’s my railroad boots and my leather jacket.
As I say goodbye to Ruby’s arms, although my heart is breaking.
I will steal away out through your blinds for soon you will be waking.

The morning light has washed your face and everything is turning blue now.
Hold on to your pillow case there’s nothing I can do now
As I say goodbye to Ruby’s arms, you’ll find another soldier,
and I swear to god by Christmas time there’ll be someone else to hold you.

The only thing I’m taking is the scarf off of your clothesline.
I’ll hurry past your chest of drawers and your broken wind chimes.
As I say goodbye, I’ll say goodbye, say goodbye to Ruby’s arms.

I will feel my way down the darkened hall and out into the morning.
The hobos at the freight-yards have kept their fires burning,
so Jesus Christ this goddamn rain will someone put me on a train.
I’ll never kiss your lips again or break your heart

As I say goodbye, I’ll say goodbye, say goodbye to Ruby’s arms.

*** ***

Esta é uma canção sobre a tristeza de sair da vida de alguém, mas tem uma enorme complexidade em sua evocação do arrependimento, da decepção, da perda e das expectativas frustradas. Os acordes piegas de metais da abertura criam um ar quase agonizante de dor emocional, de emoção desconexa, que é contrariado pela bela melancolia da melodia no piano. O piano, por sua vez, doma os metais, colocando-os, junto com as cordas, num todo mais completo e comovente. É o som do vazio na esteira de uma decisão irreversível; ele capta a insuportável tristeza e a fria certeza de ser cruel para ser gentil.

Fica claro que o eu-lírico está profundamente afetado por sua decisão de ir embora; vemos arrependimento, vemos sentimento (ele já sente saudade da Ruby antes de ir embora, mas sabe muito bem que o que ele está fazendo é necessário porque ele simplesmente não é talhado para ficar). Sua afirmação “you’ll find another soldier” (tu acharás outro soldado) dá uma idéia talvez enganosa da própria Ruby: vislumbramos uma mulher que, de maneira comovente, deseja um homem forte, talvez para protege-la, confortá-la e cuidar dela. Mas será que nosso narrador entendeu tudo errado? Será que a Ruby deseja não “outro soldado”, mas sim esse soldado em especial? Será que ele está encontrando nisso um consolo frio para se convencer de que ela ficará bem, de que outro homem virá, quando, na verdade, o erro está na sua incapacidade de “sossegar”, de ficar com ela, ser fiel e cumprir o papel que ela deseja que ele cumpra?

Seja como for, independentemente de como ele entenda as expectativas, as necessidades e os desejos dela, ele é incapaz de ficar, e isso o inunda de arrependimento por ela tanto quanto por ele mesmo. Sabendo disso, ele sente uma solidariedade profunda com o vazio que está deixando na vida dela: “Hold onto your pillow case, there’s nothing I can do now” (Agarra a rua fronha, [pois] agora não posso fazer nada). Ele sabe quanto ela depende da força e do apoio dele, mas simplesmente não consegue ficar e oferecer isso.

A lentidão da sua partida nos deixa fazer o caminho junto com ele: um fim de madrugada, fracamente iluminado, um passeio sentimental por móveis e pertences que representam a intimidade que os dois tiveram e nos lembram que, quando amamos alguém e passamos tempo no espaço da pessoa, criamos um carinho profundo pelo contexto e pelos pertences dela. Quando saímos da vida de alguém, não perdemos simplesmente essa pessoa, mas também todos os enfeites que formavam a personalidade dela e que nos davam conforto e prazer, seja uma cômoda ou um senhor-dos-ventos. É essa referência aos objetos do dia-a-dia (que, na melancolia da canção, se revestem de um significado intenso) que torna a canção tão eficaz. Na verdade, o senhor-dos-ventos quebrado seja, talvez, um símbolo da própria Ruby. Uma coisa bonita, mas imperfeita, que também diz, indiretamente, algo sobre as circunstâncias dela: ela não está bem de vida, mas se esforça para ter coisas bonitas, por assim dizer. Com isso, Tom Waits consegue fazer uma caracterização surpreendentemente rica, pois “botas” e “jaqueta de couro” indicam com ênfase não apenas que o eu-lírico é um operário, talvez um andarilho, um trabalhador itinerante, provavelmente um soldado dispensado, explicando ainda mais a inevitabilidade e a causa principal do que talvez seja a mais recente de uma série abandonos de outras mulheres como Ruby.

A fraca luz azul da manhã, a referência ao cachecol, a chuva e as fogueiras dos mendigos no pátio de cargas criam o ambiente frio de uma partida no começo da manhã. Talvez nosso personagem tenha passado a madrugada acordado e pensando, sabendo bem, na realidade gelada da manhã, que havia chegado a hora de ir embora. Porém, apesar dessa certeza, podemos sentir sua raiva e frustração, aparentemente dirigida ao tempo “this goddamned rain” (essa maldita chuva), mas, na verdade, dirigida a si mesmo. “I’ll never kiss your lips again, or break your heart” (Eu nunca mais vou beijar tua boca, nem te decepcionar). Ele sabe muito bem que não pode ser nada além do gauche que ele é, mas, de alguma forma, gostaria de conseguir ser diferente. Nesse ponto, a dificuldade da sua decisão o deixou exausto e confuso; “will someone put me on a train” (alguém, por favor, me coloque num trem). Ele encontra alguma esperança no fato de os mendigos terem deixado suas fogueiras acesas (“kept their fires burning”), mas o peso da sua escolha, o peso da emoção que ele carrega, o deixaram exausto; ele queria que essas coisas fossem tiradas das suas costas, ele precisa de alguém que seja forte por ele nesse momento, que o tire dessa fonte de angústia, dúvida e arrependimento.

Esta canção precisa ser ouvida para ser apreciada como se deve. Com isso não quero dizer que a letra tenha defeitos; quero, sim, prestar homenagem ao Tom Waits, cuja interpretação lenta, cujas pausas e prolongações aportam à letra um pathos extraordinário. Eu posso ouvir essa música mil vezes, e mil vezes vou ficar com os olhos marejados no verso “and your broken wind-chimes”. Poucas vezes encontrei um simbolismo emocional tão potente combinado com uma interpretação tão dolorosa. Eu sempre tento cantar junto, mas nunca consigo cantar esse verso porque minha voz sempre fica embargada. E isso, além de todas as outras qualidades extraordinárias da canção, basta para que eu a considere uma das melhores canções já compostas sobre o amor.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Choradeira anti-racismo no Starbucks, ou "mundo do mimimi dos infernos"

Repete-se a história que contei anos atrás no meu blog (já extinto) sobre o caso de um menino negro que foi tangido para fora de uma loja da BMW na Barra da Tijuca. Procurem a notícia no Google.

A notícia que comento é esta (cliquem na manchete):


É muito peido pra pouca bosta ou, como dizia Guilherme Balançalança, much ado for nothing. A idiossincrasia do politicamente correto que contamina a grande mídia dá vazão às suscetibilidades mais extremadas, enquanto fatos muito mais graves são por ela negligenciados ou simplesmente minimizados. É uma intolerância seletiva.

No caso em questão, um pequeno mal-entendido contra uma menina negra transforma-se em assunto de Estado, já que tocou a esfera intangível das chamadas "minorias vulnerabilizadas". Daí surge a mídia paranóica para dar ao caso uma amplitude injustificável, massageando o ego das ditas minorias e despertando indesejáveis fogueiras raciais. É o dogma da marxista "luta de classes" vertido em "luta de raças".

Um pequeno mal entendido torna-se na grande mídia um caso emblemático de "racismo", tudo para respaldar políticas racistas da nossa classe política. O movimento negro agradece esses casos e os usa para assediar politicamente a população, na sua busca por privilégios espúrios.

Sempre defendi que o preconceito racial não deveria ser criminalizado, exceção feita à injusta discriminação, que, sim, deve ser tida como racista. O preconceito é uma atitude defensiva e, amiúde, instintiva, pouco facultativa, que se abre em momentos de escolhas rápidas e decisivas, não estando no domínio da razão ponderada. São cálculos psicossociais geralmente automáticos, sem sopesada reflexão, na maioria das vezes guiados pela experiência. Foi o caso do funcionário em questão, que expulsou a menina por já ter experimentado casos similares de meninos de cor pedindo ou vendendo balas em estabelecimentos comerciais, o que, havemos que considerar, é bastante comum. Os negros, infelizmente, representam uma parcela imensa de meninos de rua, sendo um fato que não pode ser desprezado ao julgar a reação do funcionário.

Dessa forma, embora seu preconceito tenha sido errôneo (em avaliação retrospectiva), ele não careceu de sensatez. A medida da aceitabilidade de um preconceito, qualquer que seja, deve ser a sua sensatez. Um preconceito jamais é imoral em teoria. Ele pode ser tido como certo ou errôneo na prática, e, mesmo errôneo, pode ser sensato.

O funcionário não é um ser infalível e onisciente que julga situações rápidas como se fosse Deus, adivinhando todo histórico da criança. O funcionário errou, mas não errou por malícia, como todos os seres humanos são passíveis de erro. Enganou-se justamente por não ser um ser infalível. É humano como todos nós, e todo ser humano tem preconceitos, pois estes são parte de nossa natureza. Ser humano dá preconceito como a jabuticabeira dá jabuticaba. Entretanto, com toda essa pressão da mídia, não será surpresa se ele perder o emprego, sendo julgado como "racista", com dedos em riste apontados contra seu nariz por seres humanos tidos como intocáveis e infalíveis, verdadeiros deuses em forma humana.

Para esses "deuses" em forma humana, vale o escrito na Sagrada Escritura, em Tiago 4:12:

εἷς ἐστιν νομοθέτης καὶ κριτής, ὁ δυνάμενος σῶσαι καὶ ἀπολέσαι· σὺ δὲ τίς εἶ, ὁκρίνων τὸν πλησίον;
(Há um só legislador e juiz, aquele que pode salvar e destruir; tu, porém, quem és, que julgas ao próximo?)

Ora, o funcionário jamais, em sua sã consciência, expulsaria a menina da loja se soubesse que era filha de seus clientes, só pelo fato de ser negra. Aí sim seria uma maldade e justificaria a mobilização contra o que seria uma atitude discriminatória inaceitável. Uma picada de alfinete, porém, é convertida aqui numa mordida de um Pit Bull.

terça-feira, 14 de março de 2017

A feminilização da Igreja: un instrumento de fusão com a revolução

A tendência à feminilização da Igreja, manifestada pelo papel cada vez maior concedido às mulheres na Igreja, sofreu uma guinada doutrinária quando o papa João Paulo I declarou: "Deus é Pai, e mais ainda, Ele é Mãe". Essa declaração, no Angelus de 10 de setembro de 1978, foi um alívio para o pendor dos progressistas para a efeminação. Com suas palavras ("mais ainda", più ancora, em italiano), o elemento feminino de Deus ofusca o de Deus Pai. O feminino supera o masculino.

Nos termos de Teilhard de Chardin, o feminino é o "envoltório de Deus", pois o encanto feminino envolve a Trindade e atrai a Trindade á realização de "movimentos" divinos, ou seja, "a Criação do Universo e a Encarnação do Verbo. As três Pessoas da Trindade teriam uma 'fraqueza' romântica e teriam sido enfeitiçadas pelos atributos do Eterno Feminino" (vide a obra L’Eternel Feminin).

Podemos extrair dessa referência de João Paulo I a Deus como sendo nossa "Mãe" como essa feminilização geral existe no topo da Igreja, no Trono de Pedro. E isso não terminou com João Paulo I. Em 1989, João Paulo II deu seu beneplácito, afirmando que buscava "o eterno feminino" e, novamente, em 1999, ele "louvou Deus como Mãe". 

Essa tendência à efeminação também se manifesta na perda do espírito viril que vem caracterizando a militância católica. Toda a ênfase hoje está na tolerância, na adaptação, na renúncia e ao serviço (características femininas) em detrimento da intransigência, da combatividade e do espírito de conquista e comando, que são características masculinas. 

Essa feminilização generalizada da Igreja corresponde ao ideal das Forças Ocultas de impor uma única ordem ao mundo sob o tacão de um governo único.

Numa Igreja feminina, Céu e inferno se ‘harmonizam’ 


Esse ideal de uma característica feminina predominante abriu caminho há muito tempo na Poesia, na Filosofia e na Música. O poeta alemão Goethe, na segunda parte de Fausto, encerra a obra exaltando "o eterno feminino". As últimas palavras da obra são, "O eterno feminino nos atrai ao alto" (Das Ewig-Weibliche Zieht uns hinan).

Um grande amigo de Goethe era o poeta e dramaturgo alemão Johann Friedrich von Schiller, um maçom e seguidor de Kant. Em sua obra Ode à Alegria (1785), um dos poemas mais festejados da história da Literatura, ele expressou sua crença universalista. Isso já havia sido afirmado por Victor Hugo em seu poema La Fin de Satan (O Fim de Satanás), no qual o anjo feminino (L'ange Liberté) a filha favorita de Lúcifer antes de sua queda, pede permissão a Deus para ir ao Inferno para negociar com Satanás. Esse anjo convence Satanás a reconciliar-se com Deus.

A música de Beethoven traduz o ideal da Revolução

Ludwig van Beethoven, por sua vez, musicou a Ode de Schiller em sua Nona Sinfonia, especialmente no quarto e último movimento (Presto). Numa série de partituras sísmicas instrumentais, de solo e de coral, que duram mais de 24 minutos, o ouvinte é praticamente esmagado. O gênio musical de Beethoven expressa sua capacidade de influenciar o público com suas crenças na salvação universal.

Ele acreditava, como acreditavam Goethe, Hugo e Schiller, na reconciliação final entre Deus e Satanás. A letra da Ode à Alegria reflete mitologias teístas e pagãs. Embora Beethoven fosse nominalmente católico, ele nunca ia à Santa Missa aos domingos e, em seu leito de morte, protestou contra o recebimento da extrema-unção. Suas últimas palavras antes de morrer foram "Plaudite, amici, comedia finita est" ("Aplaudam, amigos, a comédia terminou"). Com isso, ele anunciava que sua vida terminava "com satisfação e plenitude". Assim, o desfecho da vida de Beethoven reflete realmente as últimas palavras da Ode de Schiller:
Allen Sündern soll vergeben,
und die Hölle nicht mehr seyn.
("Todos os pecadores serão perdoados e não mais existirá o Inferno")
O unitarista John Pearce entusiasma-se em seus elogios à Ode:
"A música de Beethoven para a Ode à Alegria de Schiller, em sua Nona Sinfonia, talvez seja a melhor música de todos os tempos (...) O espírito do poema de Schiller reverbera profundamente com minha espiritualidade. Para mim, o sagrado precisa de uma alegria borbulhante e dançável, e precisa de ligações manifestas com nosso mundo natural. A obra as evoca com maestria. É imensamente gratificante para mim cantar 'Tu, a Deusa Alegria' e saber que minha igreja a escolheu como expressão de seu caráter". 
A doutrina do Unitarismo de Pearce diz respeito ao progressismo da Igreja Conciliar. Muitas das missas novas (se não todas elas) têm as mesmas características que ele mencionou, um sagrado que "precisa de uma alegria borbulhante e dançável". O Unitarismo, como o progressismo, professa como artigos de fé que "a razão, a consciência, a plena tolerância religiosa e a salvação universal" são os únicos desejos de Deus. Foi isso que João Paulo II fez em sua audiência geral sobre o Inferno.

O movimento progressista em favor da efeminação da Igreja está em curso. Para suavizar a noção de militância católica, ele incorporou ao seu regime o poder da poesia, da filosofia e da música seculares. O aggiornamento da Igreja em suas doutrinas, suas leis e seus costumes está a todo vapor. Por meio do seu ecumenismo e diálogo, tem exibido seu eterno feminismo e colaborado com as falsas religiões e a cultura temporal. Seu objetivo é destruir a Igreja e construir uma super-república de mundo unificado, um objetivo que se aproxima a cada dia no horizonte.

Que Nossa Senhora do Bom Sucesso aliste mais Militantes Católicos nesta guerra épica e acelere o Reinado de Maria Santíssima.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Os neoateus e uma mundivisão de ilusão

Quem procura conhecer a vastíssima literatura publicada pelo movimento neoateísta percebe que surge uma mundivisão diferenciada. Ateus de matrizes variadas como Michael Ruse, Richard Dawkins, Daniel Dennett, Lawrence Krauss, Sean Carroll, Dan Barker, Sam Harris, Alex Rosenberg e o finado Christopher Hitchens apresentaram uma visão definitiva da realidade, que pode ser reconhecida sem dificuldade como a mundivisão (ou para usar um termo caro aos filósofos, Weltanschauung) atéia. Sejam quais forem os matizes presentes na literatura, o quadro cientificista e fisicista da realidade corresponde a considerar estas várias posições filosóficas: a moral é um produto ilusório da nossa história evolutiva; a consciência é uma ilusão criada pelos disparos neurais e por reações bioquímicas do cérebro; o ego e o conceito de pessoalidade também é uma ilusão com a mesma origem física da consciência; a mente é reduzida a funções materiais e acaba desmoronando no vácuo da terminologia cientificista; o livre-arbítrio é uma ilusão porque as ações humanas acabam sendo determinadas pelas leis da natureza que operam sob a superfície do já ilusório conceito de consciência; o “nada” conceptual que deu o pontapé inicial ao “Big Bang” é, na verdade, um “algo” complexo, sendo, pois, possível que “nada” possa vir de “algo” desde que se redefina “nada” como “algo”; e, finalmente, a Matemática e a Lógica são construtos sociais nominalmente criados, passíveis de transformação caso nossa linguagem mude de aplicação quanto a esses campos do conhecimento. Outro elemento importante do aparato ateu é a ilusão reafirmada do projeto da natureza. Segundo o naturalista neodarwinista, a evolução é capaz de explicar por que somos rodeados por um mundo que parece ter sido projetado, mas, na realidade, é aleatório e caótico.

Na verdade, Alex Rosenberg apresenta um resumo conciso da mentalidade dos ateus no livro O Guia da Realidade para o Ateu: aproveitando a vida sem ilusões, pp. 2, 3:
Deus existe? Não.
Qual é a natureza da realidade? Aquela que os físicos disserem que é.
Qual é a finalidade do universo? Nenhuma.
Qual é o sentido da vida? Idem.
Por que estou aqui? Por pura sorte.
Rezar funciona? É claro que não.
A alma existe? Ela é imortal? Está brincando?
Existe o livre-arbítrio? Nem pensar!
O que acontece quando morremos? Tudo continua como de costume, exceto nós.
Qual é a diferença entre o certo e o errado, e entre o bem e o mal? Não existe diferença moral entre eles.
Por que devo agir de maneira moral? Porque faz você se sentir melhor do que se agir de maneira imoral.
Aborto, eutanásia, suicídio, impostos, ajuda internacional ou qualquer coisa de que você não gosta é proibido, permissível ou, às vezes, obrigatório? Vale tudo.
O que é o amor, e como posso encontrá-lo? O amor é a solução de um problema internacional estratégico. Não procure por ele. Ele vai encontrar você quando você precisar.
A história tem algum significado ou propósito? Ela faz muito barulho, mas não significa nada.
O passado humano tem lições para o nosso futuro? Cada vez menos, se é que alguma vez teve, para começar a conversa.
No mesmo livro, Rosenberg prossegue,
“O cientificismo dita uma compreensão completamente darwinista dos seres humanos e da nossa evolução tanto biológica quanto cultural. Porém, isso não nos obriga de forma alguma a pensar na cultura humana como uma programação fixa, ou como algo que está nos nossos genes. Isso significa que, quando se trata de ética, moral e valores, precisamos adotar uma posição impopular que muita gente vai considerar imoral e ímpia…Quem quiser ser cientificista precisa se sentir à vontade com uma certa dose de niilismo.”
Segundo a mundivisão ateísta, tudo é fisicamente reduzido às leis fixas e deterministas da Física, como numa camisa de força, que atuam em todo o campo de uma estrutura darwinista formulada de funcionamento químico e biológico, localizada nos confins do ser humano. Com esse trabalho de base (naturalismo metafísico e cientificismo epistemológico), cada uma das principais facetas da vida humana é anunciada como uma ilusão da natureza. Não existe significado, propósito, projeto, telos nem moral.

Essa interpretação da realidade deve acionar imediatamente o problemático sinal de alerta do pensador crítico.

Vamos nos concentrar no problema do projeto da ordem natural. Francis Crick nos lembrou, numa frase famosa, de que, ao estudar a natureza, devemos saber que nosso objeto de estudo não é de forma alguma projetado, apesar de parecer organizado dessa forma. Mas por que precisamos nos lembrar disso? Por que precisamos nos lembrar de que a ordem natural não é projetada quando nos deparamos com essa realidade? E se a natureza for projetada? E se a “aparência” de projeto realmente for um projeto? Se precisarmos nos convencer constantemente de que os aspectos mais importantes da realidade são ilusões (moral, consciência, pessoalidade, projeto, livre-arbítrio, etc.), talvez a mundivisão que propõe essas afirmações tenha se reduzido explicitamente ao absurdo.

Todas essas supostas descobertas insinuadas pelo clamoroso anti-evangelho do regime neoateu, ou seja, que estamos enclausurados num abismo de ilusões, são, de certa forma, feitas pela realidade do método científico. Devemos nos perguntar se esse método científico não é, também, uma ilusão. Por que o método científico é capaz de se eximir de ser uma mera aparição útil que examina um vácuo de uma afirmação conceptual subjetiva (que esses ateus conseguem entender completamente sem o mais leve reconhecimento de ironia)?

Em vez de nos intimidarmos pela manobra tática de vincular o absurdo à investigação científica, devemos levar essas visões atéias à sua conclusão lógica. Se a “realidade” ao nosso redor não passa de uma miragem, de uma alucinação subjetiva, então não apenas o método científico fica prejudicado, mas também o motivo secular que os ateus guardam com tanto zelo em seus corações. A idolatria da razão e da natureza, no contexto dessa hybris neoatéia, não passa de fantasmas da realização de um desejo inconsciente Nem a razão nem a ciência são capazes de manter nenhum valor de verdade na metafísica e na epistemologias naturalistas seculares. Nossas faculdades cognitivas, por serem produtos de um mecanismo de sobrevivência na natureza, e não um mecanismo de “verdade”, são incapazes de exercer a razão, da qual o método científico é produto. Os empiristas do tipo científico, habilidosos mestres da tática que são, ignoram convenientemente o fato de que os próprios métodos usados para estudar a natureza são produtos da razão, e não na natureza. Em outras palavras, a ciência não pode justificar a si mesma usando o método científico. Do contrário, entra-se eternamente num círculo vicioso hermético. A caixa de ressonância da afirmação fisicista só pode ser útil para quem faz parte desse delírio.

A circularidade da visão atéia é mais ou menos assim: “a Física explica tudo sobre a realidade, o que sabemos porque qualquer coisa que a Física não explica não pode existir na realidade, e sabemos disso porque tudo o que existir em relação à realidade deve ser explicável pela Física, porque a Física explica tudo.”

Considerando essas posições do movimento neoateu, postular o absurdo e, ao mesmo tempo, ridicularizar a existência de Deus com as mesmas ferramentas que, momentos antes, eram retratadas como miragens, e, ao mesmo tempo, criticar as bases cristãs que foram as fontes da razão e do método científico, é, na melhor das hipóteses, um exercício esplêndido de auto-engano.

Defender essa mundivisão atéia naturalista e, ao mesmo tempo, ridicularizar quem ousa sequer questioná-la exemplifica até onde os homens decaídos podem ir para suprimir a verdade com a iniqüidade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O que é conhecido como Deus?

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A questão da existência de Deus é um debate candente na nossa cultura. Deus existe? Se Deus existe, essa existência pode ser demonstrada pela razão? Se a existência de Deus puder ser demonstrada pela razão, essa demonstração segue as regras daquilo que o método científico permite que seja considerado verificável? Questões como essas, e muitas outras do mesmo jaez, podem se expandir a um ponto em que, muitas vezes, se deixarão de lado questões muito mais importantes, tais como “Ao que se chama Deus?” ou “Qual é a natureza de Deus?

Qual é a natureza do Deus a que louvamos, e por que procuramos comprovar Sua existência à nossa atual cultura, tão comprometida em ignorá-Lo? Essa questão pode mostrar sua importância em comparação com uma conhecida gracinha dos ateus, que muitas vezes coloca alguns cristãos na defensiva. Os ateus argumentam: “De todos os deuses que ‘existiram’ e foram cultuados ao longo da história de todas as civilizações, vocês, cristãos, se apegam a apenas mais um conto de fadas de um deus encontrado no texto do Antigo e do Novo Testamento. Então você é ateu em relação a todos esses outros deuses, mas nós, ateus, damos um passo adiante e rechaçamos também esse mito de Abraão”. Esse resumo é conhecido como o argumento de “só mais um deus” popularizado pelo movimento neoateísta.

Esse argumento, por simples que possa parecer, ataca algo muito importante para quem defende a fé cristã, ou seja, a natureza de Deus. O Deus de Abraão, Isaac e Jacó não passaria de outro mito invocado que não difere daqueles deuses das fábulas pagãs que buscam Zeus ou Apolo para conseguir iluminação espiritual? O Deus Trinitário revelado no batismo de Jesus Cristo não seria a mesma entidade que os ídolos venerados nas religiões orientais? A única maneira pela qual o argumento de “só mais um deus” poderia funciona seria se isso realmente fosse verdade, ou seja, se o Deus da fé cristã não passasse de outro “ser” de natureza material esperando que sua lacuna narrativa fosse preenchida pelas mais recentes descobertas do “olho que tudo vê” do método científico.

Acontece que isso não é verdade. O ateu erra quando utiliza esse argumento para supostamente comprovar que a crença num deus está necessariamente ligada a fábulas ancestrais criadas por mentes menores na tentativa de explicar o que a ciência já comprovou ser falso.

A natureza de Deus não é a de um ser que possa ser comparado a outros seres da Criação. Um acontecimento importante registrado nas páginas da Sagrada Escritura demonstra que Deus não é uma entidade criada comparável a Zeus, Apolo ou ao bule voador.

Quando Moisés encontrou Deus na moita em chamas, ele fez a Deus uma pergunta muito simples, mas profundamente importante: o que deveria dizer aos israelitas se lhe perguntassem o nome de Deus? Deus respondeu a Moisés, dizendo “EU SOU O QUE SOU”. Deus disse ainda, “Assim direis aos filhos de Israel: AQUELE QUE É me enviou a vós”. (Êxodo 3:14). O nome de Deus dado a Moisés nos revela que Deus não pode ser comparado a outros seres materiais da Criação. Deus é o “EU SOU”, aquele que é o ser em si, eterno, com existência autônoma, independente, infinito, ´sem início, fim ou mudança, e, o que é mais importante, a fonte de todo e qualquer ato de ser. Deus transcende a ordem natural criada e sustenta Sua própria existência por Seu poder imanente de sustentação.

O argumento do “só mais um deus” não pode ser levado a sério sequer por um instante pelo fato de que erra fundamentalmente na compreensão da majestade de Deus, que revelou a Si mesmo como “EU SOU”.

A Igreja Católica proclamou e protegeu o nome revelado de Deus em declarações como esta, do Primeiro Concílio Vaticano:
“A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber”. (DENZINGER, H., Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, p. 644, 3001).
É importante observar que, por definição, só pode existir um Deus. Só pode existir um ser divino corretamente reconhecido como “AQUELE QUE É”, ou, como diz Santo Anselmo, “Aquele do qual nada maior pode ser imaginado”. Não há rival nem há igual àquele que é o Ser em si esse ipsum, Ser infinito, o Criador de todas as outras coisas, a causa Eficaz, a causa Final de todos os outros seres.

Os neoateístas (entre outros) fazem o que São Paulo descreve nesta famosa passagem do livro dos Romanos:

18 Ἀποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ θεοῦ ἀπ’ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων, 19 διότι τὸ γνωστὸν τοῦ θεοῦ φανερόν ἐστιν ἐν αὐτοῖς, ὁ θεὸς γὰρ ⸃ αὐτοῖς ἐφανέρωσεν. 20 τὰ γὰρ ἀόρατα αὐτοῦ ἀπὸ κτίσεως κόσμου τοῖς ποιήμασιν νοούμενα καθορᾶται, ἥ τε ἀΐδιος αὐτοῦ δύναμις καὶ θειότης, εἰς τὸ εἶναι αὐτοὺς ἀναπολογήτους, 21 διότι γνόντες τὸν θεὸν οὐχ ὡς θεὸν ἐδόξασαν ἢ ηὐχαρίστησαν, ἀλλὰ ἐματαιώθησαν ἐν τοῖς διαλογισμοῖς αὐτῶν καὶ ἐσκοτίσθη ἡ ἀσύνετος αὐτῶν καρδία 22 φάσκοντες εἶναι σοφοὶ ἐμωράνθησαν, 23 καὶ ἤλλαξαν τὴν δόξαν τοῦ ἀφθάρτου θεοῦ ἐν ὁμοιώματι εἰκόνος φθαρτοῦ ἀνθρώπου καὶ πετεινῶν καὶ τετραπόδων καὶ ἑρπετῶν.”

18 A ira de Deus é, pois, revelada do Céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, 19 porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles; Deus, na verdade, revelou a eles 20 Pois, desde a Criação do mundo, Seus atributos invisíveis, seu eterno poder e sua natureza divina têm sido vistos claramente, sendo compreendidos pelas coisas criadas, não tendo esses homens, portanto, [nenhuma] desculpa, 21 porque, conhecedores de Deus, não o glorificaram como Deus nem [Lhe] foram gratos, mas se tornaram fúteis em seu pensamento e seus corações insensatos se escureceram. 22 Professando serem sábios, enlouqueceram, 23 e transformaram a glória do imortal Deus na semelhança de uma imagem de um homem mortal, e de pássaros, e de quadrúpedes, e de répteis.” (Romanos 1:18-23, em tradução minha diretamente do grego koiné)

Deus revelou-Se de numerosas maneiras, de forma que ninguém tem desculpa para negar Sua existência. Deus revelou-Se generosamente pela ordem natural da nossa realidade criada comum, e Ele revelou-Se diretamente a pessoas como Moisés, de forma que pode reunir um povo em torno de Si como testemunha de Sua condição especialmente revelada, o “EU SOU” a que toda existência deve seu louvor.

Apesar da fecundidade de Deus, a humanidade marcada pelo pecado de Adão continua na escuridão de suprimir a existência de seu Criador. Essa supressão ocorre reduzindo Deus a uma entidade criada, depois negligenciando-O a um produto do argumento de “só mais um deus”.

Agora que podemos ver mais claramente que essa manobra é um erro que depende de uma descaracterização fundamental da natureza de Deus, meu argumento apologético deve funcionar para demonstrar a existência de Deus como Ele revelou a Si mesmo. Qualquer coisa menos do que apresentar aos incréus “AQUELE QUE É” pode acabar justificando o erro de identificação que os ateus procuram manter em sua supressão voluntária do conhecimento que os deixa sem desculpa alguma.

domingo, 8 de janeiro de 2017

‘Black Mirror’ tenta, mas não consegue, criar o Paraíso na Terra

A série ‘Black Mirror’ da Netflix apresenta um ponto de vista sóbrio sobre o tipo de salvação que as pessoas procuram quando não têm mais razão para acreditar em Deus.

ALERTA DE SPOILER DO 4º EPISÓDIO DA 3ª TEMPORADA DE ‘BLACK MIRROR’

Finais agridoces são caracterizados por uma noção superficial de perda que dá lugar a uma noção de "bem maior". Como se chamaria um tipo oposto de resolução para uma história? Eu não sei se existe um termo para isso, mas valeria a pena inventá-lo para o quarto episódio da terceira temporada da série "Black Mirror".

“San Junipero” começa com uma jovem chamada Yorkie (interpretada por Mackenzie Davis) andando sem rumo pelas ruas da cidade do sul da Califórnia que dá nome ao episódio. Numa boate, Yorkie é abordada por uma das freqüentadoras vestida num estilo "mais anos oitenta do que os anos oitenta", Kelly (interpretada por Gugu Mbatha-Raw). Tentando dar um perdido num sujeito inconveniente, a moça conta uma mentira grossa sobre Yorkie, dizendo que é uma amiga que só tem mais alguns meses de vida.

Acontece que a armação de Kelly não era tão inverossímil assim. San Junipero é uma simulação futurista de computador preenchida principalmente pelo upload das consciências de pessoas que já morreram, sendo uma minoria delas os idosos doentes, que só podem fazer cinco horas de visita por semana. As duas mulheres aparentemente jovens se encaixam na última categoria: Kelly é, na verdade, a que está sofrendo de uma doença terminal, e Yorkie está em coma há décadas por causa de um acidente de automóvel causado indiretamente quando ela "saiu do armário", desagradando seus pais.


Together Forever… Na Internet

As duas mulheres se apaixonam e Kelly visita Yorkie no mundo real, casando-se com ela para autorizar a eutanásia da mulher em coma, permitindo que ela se torne uma moradora permanente do paraíso virtual. Porém, a alegria delas é estragada por uma diferença de opinião sobre o futuro. Yorkie passou a amar o mundo simulado, mas Kelly planeja morrer naturalmente por causa de uma promessa que fez ao seu marido, que escolheu não fazer a “passagem” para San Junipero em virtude de sua crença religiosa (que não era a mesma de Kelly) e do desejo de estar com sua filha, que morrera antes da criação dessa tecnologia de "vida após a morte".

O episódio termina com uma montagem ao som da música “Heaven Is a Place On Earth”, de Belinda Carlisle, tão adequada que parece que os roteiristas construíram todo o episódio em torno dela.


Ooh, baby, do you know what that’s worth?
Ooh heaven is a place on earth
They say in heaven love comes first
We’ll make heaven a place on earth

Um líquido percorre um tubo transparente ligado a Kelly, que decidiu realizar a eutanásia e viver em San Junipero.

In this world we’re just beginning
To understand the miracle of living
Baby I was afraid before
But I’m not afraid anymore.

Agora Kelly chegou, e ela e Yorkie podem ser vistas aproveitando sua lua-de-mel eterna.


Eu existo para me fazer feliz

Muitos artigos que tecem elogios rasgados ao episódio nos levam a crer que as mulheres foram salvas e poderão viver felizes para todo o sempre. O amor a tudo vence nesta obra televisiva cheia de esperança e espantosamente humana. Até o nome “San Junipero” faz referência a São Junípero Serra, frade franciscano catalão recém-canonizado por seu trabalho de levar o máximo possível de almas de índios americanos para a salvação, e o episódio batizado com seu nome apresenta uma perspectiva sóbria do tipo de salvação pelo qual as pessoas podem torcer quando não há mais razão para crer em Deus.

Mesmo sem o recurso tecnológico de fazer o upload da consciência, ainda encontram-se presentes os impulsos doces mas niilistas que podem emprestar a um mundo simulado ares de salvação da Humanidade. Para Yorkie e Kelly (ou qualquer outro par lésbico, por falar nisso), a possibilidade de gerar filhos é igualmente inexistente em princípio, tanto em San Junipero quanto em qualquer outro lugar.

Mas não é apenas uma questão de homossexualismo; a lógica do "casamento" entre pessoas do mesmo sexo tem sido enxertada há décadas no casamento entre pessoas de sexos opostos. Ao passo que o casamento na nossa sociedade sempre foi um conjunto de obrigações perante pessoas no passado, no futuro e no presente, agora ele passou a se resumir ao amor: duas (ou mais?) pessoas se curtindo num relacionamento que elas podem terminar a qualquer momento. Como, então, justificar que se proíba duas pessoas que se gostam de se casar, seja qual for seu sexo?

Portanto, a relação homossexual e a relação heterossexual contraceptiva de desfrute mútuo podem ser vistas como um microcosmo do mundo paradisíaco de San Junipero: a existência delas não é justificada por nenhuma finalidade criada, mas sim pela filosofia moral de que a matéria, a consciência e a existência devem ser fundidas e reorganizadas para maximizar o desfrute individual. mesmo que exista a opção de ter filhos em San Junipero, ela existiria da mesma forma que existe a adoção por gays no mundo real: algo, como um escolha de consumo, que é um meio para satisfazer desejos, não um fim em si mesmo.


Eu não quero me libertar, eu quero me enterrar.

Matrioska
Matrioshkas
A canonização de Serra não ficou livre de polêmicas. Sua busca obstinada pelo bem espiritual dos povos indígenas da Califórnia implicava logicamente a supressão da cultura deles, que não era cristã.

No mundo de “Black Mirror”, as coisas não são tão diferentes: a antiga ordem moral serve apenas para impedir que as pessoas se divirtam, como, por exemplo, a reprovação do homossexualismo de Yorkie por sua família e sua negação da autorização da “transição” dela para San Junipero. Esses bloqueios culturais atrapalham a nova forma de salvação da humanidade, ergo devem ser suprimidos, no melhor espírito do São Junípero Serra original.

Mas o que o nome com que a simulação foi batizada procurava, como procura a maioria das outras pessoas profundamente religiosas, era a transcendência, a libertação do nosso universo limitado e a comunhão com o que quer que paire acima dele. Mesmo os bilionários da tecnologia, que não têm religião, já estão procurando maneiras de se libertar da simulação de uma maneira muito mais literal (isso lembra um dos argumentos pela existência de Deus: "Qualquer coisa que exista fora da nossa “simulação” pode ser conceptualmente idêntica ao Absoluto").

As personagens principais aparentemente triunfantes de “San Junipero” buscavam o oposto, ou seja, descer um nível a mais para dentro da matrioshka. Yorkie e Kelly não encontraram a libertação. Usando os mesmos princípios que esperam que sigamos nos dias de hoje, elas chegaram a uma maneira sustentável de permanecer ignorantes e indiferentes. O motivo disso é que a libertação não é uma viagem despreocupada de auto-realização. A libertação dói, e muito.