sábado, 2 de abril de 2016

O problema das estratégias

Sou tradutor profissional há quase 20 anos, e uma das coisas que mais caem na minha mão para traduzir (ou verter) são "Declarações de Estratégia Corporativa". Eu me sinto meio acabrunhado quando traduzo essas coisas porque não consigo evitar o comentário mental: "que baita babaquice, meu saco!".



O problema das estratégias é que elas não passam disso: estratégias. Elas não passam de um amontoado de palavras e frases de efeito, e podem chegar a umas tantas páginas.

No mais das vezes, essas estratégias não têm nada a ver com o mundo de verdade, principalmente quando essas mesmíssimas estratégias foram escritas por pessoas especialmente contratadas para criá-las. A "pegadinha" aí é que essas pessoas simplesmente não têm o mínimo compromisso com a implementação das estratégias que bolaram.

Em verdade vos digo: na esmagadora maioria das vezes, as estratégias não funcionam no mundo de verdade, a menos que se atue num mercado totalmente previsível, com clientes totalmente previsíveis, e uma base de clientes suficientemente grande. Em suma, estratégias não funcionam para pequenas e médias empresas (nem na maioria das grandes, por falar nisso).

Em tempos d'antanho, estratégias e planos até podiam funcionar, mas as coisas ficaram tão imprevisíveis que passar meses e mais meses criando uma estratégia é, em essência, uma perda de tempo assombrosa.

Nos dias de hoje, uma empresa se dará muito melhor se criar um esboço simples e seguir em frente. Esse esboço deve definir o que a empresa quer descobrir e, depois, o mercado que decida o que será feito dele. "Meta as caras" o mais rápido possível para ver como o mercado reage, depois adapte o esboço, ajuste-o e, se precisar, refaça-o desde o início.

Eu sei que, mesmo para as pessoas da minha geração (tenho 45 anos), é difícil não ter um plano ou uma estratégia formal, e isso tem um motivo perverso: os planos e as estratégias sempre foram os bodes expiatórios quando as merdas aconteciam. Serviam para tirar vários cus da reta.

"Não foi minha culpa, o problema é que a estratégia estava errada". Que sorte de quem tinha uma estratégia para culpar. "Cagamos no pau, mas não foi minha culpa. A estratégia é que estava errada".

"Agora eu não perco o emprego. Aliás, ninguém perde o emprego e todos podemos trabalhar numa nova estratégia para aquela novidade fodástica que ouvi de um consultor... e vamos contratar uma consultoria de estratégia..."

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