sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O que Donald Trump é?

Magnata dos cassinos e de boates de strip tease, Donald Trump não passa de um boçal. Seus seguidores afirmam que esses atributos são perdoáveis num candidato ao cargo ocupado em tempos d'antanho por George Washington e Abraham Lincoln, pois Trump é um verdadeiro conservador. Em artigo recente, Jonah Goldberg redigiu uma ótima resposta à afirmação de que o conservadorismo justifica uma nojenta e sistemática falta de educação. Neste artigo, pretendo falar sobre o pilar mais importante da defesa de Trump, ou seja, a afirmação de que ele é um “verdadeiro conservador”. 

Donald Trump não é conservador de forma alguma. Para ser conservadora, a pessoa deve apoiar vários princípios, entre eles:

  • governo limitado;
  • livre iniciativa econômica;
  • Estado de Direito;
  • Justiça igualitária nos termos da lei;
  • direitos individuais;
  • ética judaico-cristã
  • predomínio das virtudes clássicas sobre os vícios clássicos;
  • oposição à corrupção;
  • amor à Verdade;
  • nos Estados Unidos (afinal, trato aqui de um candidato à presidência desse país), apoio às doutrinas e ao sistema estabelecidos pelos founding fathers.

Trump é reprovado em cada um desses quesitos.

Trump não é a favor da livre iniciativa econômica. Ele é, na verdade, um estatista extremado, muito mais radical do que Barack Obama em diversas áreas essenciais. Alguns exemplos:

  • Trump apóia um sistema público de saúde nacionalizado por contribuição individual, um sistema que colocaria as vidas dos norte-americanos nas mãos dos burocratas do governo.
  • Ele é um fervoroso partidário do protecionismo comercial, apoiando um sistema que enriquece os "amigos do rei" capazes de providenciar medidas governamentais para bloquear os concorrentes estrangeiros.
  • Ele é praticante e defensor das desapropriações, apoiando um esquema que enriquece os "amigos do rei" capazes de providenciar medidas governamentais para desapropriar as casas dos cidadãos comuns se isso for necessário para aumentar os lucros do oligarca.
  • Ele ostenta sua prática de corrupção do poder público através de propinas para autoridades eleitas que, à letra da Constituição, deveriam representar uma certa combinação do seu eleitorado e suas próprias consciências.
  • Ele demonstra desabrido desprezo por virtudes clássicas patrióticas essenciais como coragem, tendo construído sua carreira promovendo a ganância e a luxúria.
  • Ele toma enormes empréstimos para, depois, enganar seus credores enquanto desfila com seus bilhões para quem quiser ver.
  • Ele cospe mentiras e, quando exigem dele fatos que corroborem suas afirmações, "canta e anda" como se a verdade não importasse.
Sua metodologia, em geral, é a de um demagogo, de um mobilizador da paixão contra a razão, um exemplar do pior inimigo da democracia.

Mas a oposição de Trump à imigração ilegal não faria dele um conservador, pelo menos nessa questão? De jeito nenhum. Os conservadores argumentam contra a imigração ilegal com fundamento no apoio ao Estado de Direito. Mas é certo que Trump não apóia o Estado de Direito. Ele apóia, sim, o uso indevido e a distorção das leis e, com seus cassinos e suas boates de strip tease, atua com força num setor famoso por suas ligações com o crime organizado, a lavagem de dinheiro, a prostituição e o tráfico de drogas.

Portanto, para Trump, a questão da imigração ilegal não tem nada a ver com as leis. O problema são os imigrantes.

Contudo, devo deixar claro que o argumento principal proposto pelos que se opõem à imigração, ou seja, o protecionismo da mão-de-obra, é contrário à livre iniciativa e, portanto, não é uma posição verdadeiramente conservadora. Mesmo assim, o lado pragmático da política de imigração é uma área na qual pessoas sensatas podem divergir. No entanto, não pode haver lugar para o tipo de demagogia xenófoba que Trump optou por adotar no movimento conservador. Para falar o português claro sobre o assunto, o racismo é uma ideologia coletivista. Na verdade, como destacou Friedrich Hayek em sua obra clássica "O Caminho da Servidão", o racismo é um item obrigatório do socialismo porque, para mobilizar as paixões necessárias para cumprir a pauta coletivista plena, é preciso invocar o instinto de tribo. Assim, como Adolf Hitler entendeu perfeitamente, e Stálin e todos os tiranos comunistas que vieram após ele perceberam, o objetivo definitivo do socialismo não é uma fraternidade internacional sem nações, e sim uuma forma de nacionalismo tribal raivoso.

Em resumo, Trump é um nacional-socialista, ou talvez, o termo seja “nacionalista social”. Certamente ele não é um nazista, nem um nacional-socialista nos moldes da tirania norte-coreana de hoje, ou da de Pol Pot. Ele é um tipo diferente de nacionalista/socialista. Talvez a analogia mais próxima seja a do regime de Vladimir Putin, que usa o nacionalismo extremado (eurasianismo) para garantir o apoio das massas a um governo ilimitado que atende aos interesses de quem o controla ou dos que puderem pagar o suficiente para influenciá-lo.

No mundo "putinesco", não há leis que restrinjam os fortes de maneira eficaz nem que protejam os fracos. O governo é onipotente, e sua forma de atuação está para alugar. Não importa se a sua causa é justa ou injusta. O que importa é quem você pode comprar. O problema não é que o sistema é corrupto. A corrupção é o próprio sistema, e todos sabem disso.

Isso lembra alguma coisa?

Nacional-socialismo não tem nada a ver com o conservadorismo. Na verdade, é o antípoda do conservadorismo. Respondendo parcialmente à pergunta do título do meu último artigo sobre Donald Trump, ele não é Republicano e também não é conservador. Ele já declarou abertamente que não aceitará o veredito dos eleitores nas primárias. Sua campanha deveria ser encerrada imediatamente.

Nenhum comentário: