domingo, 5 de outubro de 2014

Não voto e, por isso, tenho todo o direito de reclamar.

Se você, assim como eu, não acredita em soluções através da política partidária, estou certo de que, em algum momento, ao discutir política, você já se deparou com um interlocutor que, peito estufado e ar soberbo, sentenciou: "Se você não vota, então não tem direito algum de reclamar!"
Essa afirmação tem um probleminha lógico de inversão de premissas. Explico detalhadamente para você, leitora não afeita às sutilezas da lógica formal.

Primeiramente, se eu não aceito a existência de uma coisa (no caso, uma instituição chamada 'governo'), onde está a lógica de participar de um ato que implica aceitar sua existência?  Onde está a lógica de participar de um ato que corresponde a assinar embaixo da existência desse esquema? E vou ainda mais longe: onde está a lógica de fazer tudo isso e ainda reclamar da existência deste algo que desprezo?

Exemplifico: se eu aceito me associar a um clube ou se aceito ser, por exemplo, prestador de serviços de qualquer espécie para esse clube, é implícito que eu aceito as condições, os estatutos, as regras e os valores do clube. Em outras palavras, fica subentendido que eu dou meu apoio à existência desse clube.

Mais um exemplo (e um pouco melhorzinho): se eu não gosto da culinária típica baiana (e não gosto mesmo - tenho até um certo trauma), eu não vou a restaurantes especializados nessa culinária. Simples assim. E como os proprietários dos restaurantes baianos não podem bater à minha porta e me obrigar a freqüentar seus estabelecimentos, então não há absolutamente nenhum motivo para eu reclamar de que o acarajé, vatapá e quejandos que servem é uma porcaria. Por outro lado, se eu, por minha vontade e por minhas pernas, for a um restaurante baiano, estarei deixando claro que quero receber a comida e o serviço que ele oferece.

Seguindo essa linha de raciocínio, se você é antipetista (coisa meritória por natureza) que defende a existência do Estado — mas, obviamente, não votou nem vai votar na Dilma —, não tem direito nenhum de reclamar de qualquer governo que seja, seja qual for o cacique de plantão. Afinal, o simples fato de votar em alguém (Aécio, Dilma, Marina, ou até no bigode do Fidélix) equivale a assinar um contrato cujas cláusulas exigem aceitar os resultados da eleição, independentemente de quem vença.

Sim, você pode reclamar de alguns aspectos pontuais do governo, da mesma maneira que, indo a um restaurante, eu posso reclamar do ponto da minha picanha, dizer que a alga do meu temaki não está crocante, ou que o garçom me atendeu mal. Da mesma forma, votar em alguém é a mesma coisa que entrar num restaurante: você aceita (de repente, até aplaude) a existência dele e do que ele oferece da mesma forma que aceita o sistema político vigente, com todos os possíveis resultados e as respectivas conseqüências.

É uma rematada cretinice dizer "Eu defendo a existência de um governo, mas não gosto das políticas do atual governo". Os governos atuam com algumas constantes: ordens, controle, espoliação (por meio de impostos) e redistribuição. A única variável é a intensidade dessas constantes (que são verdadeiros crimes) e as vítimas dessas constantes. Acontece que esses crimes nunca deixam de ser cometidos e as pessoas nunca deixam de ser espoliadas. Essa é a essência de todo e qualquer governo.

Por outro lado, se eu não aceito a legitimidade de um governo (e, além disso, não acredito ser necessário existir governo algum), então eu, e apenas eu, tenho o direito de reclamar de absolutamente qualquer coisa relacionada a este sistema nefasto. Apenas eu posso criticar, sem incoerência alguma, todo e qualquer aspecto desse monopólio ineficiente e corrupto que tenta me oprimir e espoliar sem que eu sequer queira ou peça os "serviços" que ele fornece.

Você, que defende a existência dessa entidade sórdida e espoliadora, mas acha que a cidade, o Estado ou o País poderia "ser gerenciado por pessoas melhores, mais honestas e mais competentes", deixo o meu reality check, amiguinho: você NÃO TEM DIREITO ALGUM de reclamar de qualquer aspecto negativo do governo. What you give is what you get. Você está recebendo exatamente aquilo que defende.