quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Malévola": um filme malévolo

ATENÇÃO: ESTE ARTIGO CONTÉM REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO. SE AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME COMENTADO, SUGIRO QUE PARE DE LER AGORA.



Na última terça-feira, logo após a partida Brasil x México, fui ao cinema (Cinemark do shopping Metrô Santa Cruz) e, após breve “reunião deliberativa” com minha namorada, decidimos por comprar ingressos para “Malévola” (título original “Maleficent”).

Após 1h37 de exibição, terminado o filme, saí do cinema bastante incomodado com o enredo do filme. Explico.

Contos de fadas “adaptados” já são tradicionais na cultura popular dos Estados Unidos. Jay Ward ficou famoso por um segmento exatamente com esse título no seu desenho animado “As Aventuras de Alceu e Dentinho” (The Adventures of Rocky and Bullwinkle). Mesmo nas doses homeopáticas administradas por Jay Ward, os contos de fadas privados de seu teor dramático original por meio de ironias, alusões, referências populares e, é claro, linguagem coloquial, acabaram se transformando em peças ao mesmo tempo banais e banalizantes. Muitas vezes tive a impressão de que eles diziam “Escuta, você não tem nada melhor para fazer? Acho que tenho aqui uma historinha, mas não espere muita coisa dela, está bem?”

Como acontece com tudo o que é banal, Hollywood pegou o conto de fadas adaptado e o amplificou a proporções astronômicas. Infelizmente, as proporções só fazem destacar a falta intrínseca de significado do produto e a condescendência com que os produtores passaram a encarar o público. Algum estudante de algum curso de Cinema pode acabar escrevendo uma tese (ou, vá lá, um TCC) sobre os significados mais profundos das animações “Shrek” (da Dreamworks) ou “A Onda Nova do Imperador” (da Disney) – e, o que é pior: tenho certeza de que alguém já fez isso, e, se fez, aposto dez contra um desconfio que foi na Escola de Comunicações e Artes da USP), mas o resultado seria um monstruoso vácuo intelectual.

E agora, nas telonas brasileiras, temos Malévola. Trata-se da reductio ad nauseum (para “adaptar” uma expressão) dos contos de fadas. O filme (bem, chamá-lo de filme é exagerar sua importância) é “produzido” e “estrelado” por Angelina Jolie, uma anoréxica que já foi atraente e que permanece igualzinha quanto à sua falta de talento perceptível como atriz. Malévola nem sequer se preocupa em indicar suas várias adaptações (ironias e alusões exigem um esforço demasiado). A produção é, na verdade, um negócio tão improvisado, que despreza tanto o público e o conto A Bela Adormecida que ela corrompe, que fico imaginando como os roteiristas conseguiam ficar acordados durante o trabalho. A rigor, é terrivelmente irônico que o filme tenha passado por tantas mudanças de roteiro e até mesmo de filmagem. Só posso imaginar que o resultado teria sido uma história tão esquisita, complicada e chata que os produtores acharam melhor simplesmente arrancar tudo o que fosse além do minimum minimorum de uma história que pretende “corrigir” o conto original.

Não se trata de uma história de “comédia”, então fomos (bastante) poupados de qualquer tentativa de humor da Angelina Jolie ou dos adereços ao seu redor na tela. O que vimos foi um “conto moral” tão tosco que foi incapaz sequer de suscitar a ira de qualquer adulto (ou adolescente) pensante que estivesse na sala de cinema.

O filme certamente nos mostra que a Bela Adormecida (Princesa Aurora) foi amaldiçoada não por uma fada má, mas por um Papel Feminino Forte que foi não apenas desprezada, mas também traída e mutilada por um idiota mentiroso determinado a usá-la para conquistar poder e riqueza. Embalada por uma falsa sensação de segurança criada por declarações de afeto, Malévola adormece e suas asas (negras) são cortadas. Com certeza o criminoso não é capaz de demonstrar remorso verdadeiro, e usa sua deslealdade para conquistar o trono de sua terra e procurar destruir a terra mágica governada por Malévola. Quase sem dúvida alguma (poderia dizer “previsivelmente?”) a fada boa (e Papel Feminino Forte) Malévola é levada quase à loucura e a um ato imprudente e hostil do qual ele logo se arrependerá. Tendo amaldiçoado a filha do rei a cair em sono eterno ao final do seu décimo-sexto aniversário (a menos que seja salva por um Beijo de Amor Verdadeiro, no qual ela não acredita mais), Malévola “amolece”, como era de se esperar. Enquanto seus súditos sofrem, ela (é claro) cuida da criança e acaba amando-a. E, com certeza, nossa heroína se redime no final, mostrando sua força, a fraqueza final do homem ganancioso que, no fim das contas, age movido por medo e culpa, restabelecendo a paz e o bem-estar para si, sua terra e o belo adereço de cena que é a Bela Adormecida.

Malévola até mesmo nos oferece uma cena em que um belo príncipe se mostra impotente para despertar a Bela Adormecida ao tentar curá-la com o Beijo de Amor Verdadeiro. Não tenho dúvida de que esse último toque tinha a intenção de surpreender o público. Mas não há tensão nenhuma na cena. Ficamos sabendo, a essa altura, que, nesse mundo, os homens têm pouco a oferecer além de sofrimento. E tudo isso é tão improvisado e terrivelmente “conveniente” que a mensagem politicamente correta é incapaz de comover a ninguém.

No final, como é de praxe, nos é servida uma cena de vitória, estando o Príncipe seguro em segundo plano, e Malévola reunida com a Bela Adormecida, a qual ela mesma despertou com seu beijo. Talvez, se os produtores tivessem esperado mais um ou dois anos para fazer esse filme, as moças teriam se casado. Mas não importa. Na verdade, nada nesse filme importa. Ele não passa de mero espetáculo. Uma coleção de efeitos especiais (o dragão é muito legal mesmo!) e cenas de luta bem desajeitadas servem para prender nossa atenção por tempo suficiente para comer a pipoca e beber o refrigerante. Além disso, e do desejo de “dar o recado” pelo próprio fato de ter um Papel Feminino Forte predominante, o filme não tem absolutamente nada que seja sequer digno de repulsa intensa. Talvez se os produtores tivessem mantido os personagens extras esquisitos o filme teria sido pelo menos detestável, mas até nisso ele fracassa.

Eu assisti a outro filme da Disney, ”Frozen: Uma Aventura Congelante”, e ele merece todos os meus elogios. A animação foi menos um conto de fadas adaptado do que uma história original inspirada por uma maravilhosa narrativa à la Hans Christian Andersen. Mas, em Frozen, existe narrativa e coerência normativa. A vitória é conquistada através do amor de uma irmã pela outra e a heroína ganha não apenas o amor da família, mas também uma abertura mais amadurecida para a possibilidade de um verdadeiro amor romântico. Os roteiristas de Frozen criaram uma bela história que pretendia apresentar uma virtude verdadeira. Em Malévola, a Disney enveredou por um caminho que a está tornando cada vez pior do que já é. Previsto, sem dúvida alguma, como mais um “filme subversivo” (como “Pocahontas”) que golpeia as normas tradicionais, o resultado final prevalece até mesmo sobre a correção política rastaqüera.

Malévola é literalmente degradante em todos esses aspectos, e sua atitude ficou tão comum que deixa evidente uma cultura degradada. A opinião dos produtores do filme parece ser que eles têm direito – desde que preguem as atitudes “certas e tenham um Papel Feminino Forte – de abrir mão de qualquer história real e bem trabalhada que mostre emoções e motivações reais que exponham tanto virtudes como vícios reais.

Quanto ao Papel Feminino Forte, é cada vez mais comum na nossa sociedade que todos afirmem exigir que todas as mulheres sejam “fortes” no estreitíssimo e limitadíssimo sentido de serem capazes de realizar atos vigorosos, exibir emoções fortes e sair derrubando tudo à sua volta. É triste observar que, para muita gente (especialmente hos homens) na nossa cultura, mulheres “fortes” são mulheres que podem ser usadas e descartadas sem remorso porque são “iguais” e “responsáveis por suas próprias vidas”, como se todos não fôssemos, no fim das contas, responsáveis uns pelos outros. A mulher realmente forte na nossa atual sociedade é aquela capaz de dar a uma bobagem tão pedante quanto esse filme o valor que ela realmente tem: doutrinação dirigida a privá-las de sua natureza humana e afastá-las de vocações mais elevadas, rebaixando-as ao nível dos reduzidos homens, que, hoje, aprendem que a força não significa na da além de rechaçar os papéis tradicionais, convergindo em ambigüidade sexual, depois seguindo seus desejos do momento. Ah, e sem se esquecer de ir regularmente ao cinema para assistir a filmes insípidos.


Muito obrigado por nada, dona Disney!