terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Considerações sobre os pronunciamentos de Francisco (o papa)

"Habemus novus papam popem"

Sim, amáveis leitores! Uma coisa é inegável: depois do "popíssimo" João Paulo II, não há dúvidas de que o papa Francisco é pop.

Por pop, todos os pronunciamentos altissonantes desse papa (de fancaria, bien entendu!) Francisco são amplificados de maneira ensurdecedora e quase sempre positiva pela mídia.

Os discursos efeminados de Francisco, com foco puramente secular ou abertamente contra-mão dos ensinamentos da Igreja, soam como música aos ouvidos da mídia (predominantemente esquerdista). Uma leitura atenta desses discursos leva inescapavelmente à conclusão de que Francisco procura nivelar os ensinamentos da Igreja às tendências pagãs e politicamente corretas de hoje.

Esse simples fato já seria causa justíssima para que os verdadeiros católicos se afastassem do papa, com pesado voto de desconfiança. No entanto, a esmagadora maioria dos sedizentes católicos se pela de medo de se afastar do tacão do Vaticano, preferindo acovardar-se e mostrar complacência ante a face externa de Francisco.

Sendo certo que a mídia é pródiga em disseminar tudo o que há de mais imundo sobre a Terra (como campanhas socialistas, ecumênicas, pró-aborto, casamento gay etc.), como pode Francisco aceitar alegremente as calorosas loas dessa mesma mídia?

Something is rotting in the State of Vatican City.

De tanto defecar pela boca, Francisco conseguiu uma proeza: ser destaque de capa de um fortíssimo veículo de comunicação da militância gay, a The Advocate, para escândalo e horror dos católicos com um mínimo de honestidade moral e intelectual.

Entretanto, os católicos vêm discutindo muito pouco (por pura desonestidade ou até falta de preparo) a respeito do teor desses pronunciamento à luz da doutrina tradicional da Igreja, ou seja, a doutrina milenar que se estabeleceu com sólidas raízes antes de ser solapada pelos heresiarcas do Concílio Vaticano II.

Esses católicos de fachada preferem entoar cânticos de boiolices na Jornada Mundia da Juventude, fazer vistas grossas às declarações papais, ou, pior ainda, defender despudoradamente essas declarações, com um sem-número de acrobacias hermenêuticas e citações doutrinárias, tentando provar o impossível: que Francisco é católico, não um títere de uma seita abertamente anti-católica.

A verdade, meus caros, é que - apesar de eu me referir a Francisco como papa no início do texto, para facilitar a referência - Francisco não é papa, além de não se comportar como tal. A rigor, ele se comporta como uma espécie de líder de ONG de direitos humanos. Ele carece de qualquer preocupação legítima em ensinar o que é o verdadeiro catolicismo e, assim, converter os demais povos.

Da igreja de Francisco (que de católica só tem o nome) emanam lições e pronunciamentos com roupagem religiosa, mas cujo conteúdo consiste em propostas que andam de braços com o marxismo cultural.

Na conjuntura de hoje, faz muita falta a autoridade de um Papa com todo o peso da doutrina cristã, mas o cartão de visita de Francisco é apresentar-se como chefete de uma rasteira ONG de direitos humanos. Após as perturbadoras declarações sobre os ateus e gays (declarações essas que não fazem nada além de expor os católicos ao ridículo), não demora para que Francisco recomende o uso da camisinha e condene o fumo e o uso do álcool.

Francisco e seus capangas conseguiram reduzir a Igreja de Cristo a uma miserável caricatura. É preciso ser um asno juramentado e com antolhos, mas com pomposa pose católica, para não perceber o que está meridianamente claro à sua volta.

O problema de Francisco não está propriamente em suas amizades com integrantes de outras religiões e seitas, e sim em flexibilizar a própria religião que finge representar em virtude dessas amizades, em desabrido ato de traição, digno da tra(d)ição inaugurada pelo “apóstolo” Judas contra Jesus.

Ora, amáveis leitores, não é preciso renunciar às próprias convicções para se relacionar com o mundo. A religião cristã pede exatamente o inverso: renunciar a tudo o que for do mundo (inclusive às falsas religiões) para se unir de corde totaliter et ex mente tota com Cristo.

Francisco faz exatamente o contrário: ele abre uma larga avenida em direção ao Anticristo, e os idiotas católicos de fachado o seguem sem sequer questionar a si mesmos.

Pensemos bem, meus caros: se os sedevacantistas julgassem incorrer em erro, então teria a Igreja errado miseravelmente durante quase dois mil anos até o malfadado Concílio Vaticano II?

Afinal de contas, quem está com a razão?

sábado, 11 de janeiro de 2014

Uma história de ficção e uma advertência

Esta é uma história fictícia que anda circulando pela Internet. O professor mencionado na história não existe (infelizmente), e a brilhante estratégia para ensinar como o socialismo é perigoso e absurdo não foi colocada em prática (até onde eu sei).

Seja como for, a história é excelente como advertência.

* * * * *

Um professor de Economia de uma faculdade local afirmou que nunca havia reprovado um aluno sequer, mas recentemente havia reprovado uma turma inteira. A turma insistia em dizer que o socialismo funcionava, pois ninguém seria pobre nem rico. Seria um ótimo nivelador.

Então, o professor disse “Muito bem, vamos fazer uma experiência com o socialismo nesta turma. Vou tirar uma média de todas as notas as notas e todos receberão a mesma nota, assim ninguém será reprovado e ninguém vai receber nota 10”. [Podemos substituir as notas por reais, algo mais perto da experiência cotidiana e compreendido mais facilmente por todos].

Depois da primeira prova, foi tirada a média das notas e todos receberam nota 7. Os alunos que estudaram a sério ficaram perturbados e os alunos que não estudaram quase nada ficaram satisfeitos. Quando a segunda prova foi realizada, os alunos que não estudaram quase nada na primeira prova estudaram ainda menos na segunda, e os que haviam estudado a sério decidiram que também queriam uma folga e, portanto, estudaram pouco.

A média da segunda prova foi 4. Ninguém ficou satisfeito.

Quando a terceira prova foi realizada, a média foi 1.

À medida que as provas se sucediam, as notas nunca melhoravam, pois os bate-bocas, os xingamentos e a troca de acusações levavam a ressentimentos, e ninguém estudava em benefício dos outros.

Para surpresa de todos, TODOS FORAM REPROVADOS e o professor disse a eles que o “socialismo” também acabaria sendo reprovado porque, quando a recompensa é muito boa, o esforço para ter sucesso é muito grande, mas quando o governo acaba com toda e qualquer recompensa, ninguém vai tentar nem querer ser bem-sucedido.

Mais simples que isso, impossível.

O professor escreveu na lousa estas cinco frases para encerrar a lição:

1. Não se pode fazer os pobres prosperarem por decreto fazendo com que a lei tire a prosperidade dos ricos.

2. Para uma pessoa receber sem trabalhar, outra pessoa precisa trabalhar sem receber.

3. O governo não pode dar a ninguém nada que antes não tenha sido tirado de alguém.

4. Não se pode multiplicar a riqueza dividindo-a.

5. Quando metade das pessoas se der conta de que não precisam trabalhar porque a outra metade cuidará delas, e quando a outra metade se der conta de que não adianta trabalhar porque alguém vai receber aquilo pelo que ela trabalhou, esse será o início do fim de qualquer país.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Salgadinhos em geral (e em inglês)

Como os amáveis leitores já devem (ou deveriam saber), sou tradutor profissional desde 1997 (com pré-estréias em 1993 e 1995). E, sim, sou o que se chama de native speaker, mesmo tendo nascido cá no Brasil. Ocorre que fui criado com inglês, alemão e português falados diariamente em casa.

De vez em quando, encontramos em textos para verter do português ao inglês (e outros idiomas) coisas sobre as quais nunca paramos muito para pensar. Nesses casos, às vezes a memória (ou o conhecimento) nos trai com um ou outro termo e acabamos recorrendo ao "Pai Gugo", ao mal-afamado Proz.com, a fóruns de tradutores e outras fontes menos cotadas.

Hoje me deparei com um desses casos: como dizer "coxinha de galinha" em inglês? Vejam bem, não me refiro ao desairoso epíteto do qual lançam mão abundantemente os "pogreças" para se referir aos "reaças", e sim ao brasileiríssimo salgadinho.

A questão parece trivial, mas me leva a uma reflexão bastante pertinente, principalmente por estarmos às vésperas de receber quilotons de turistas de todas as partes do mundo para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos.

Quase sempre Muitas vezes, os restaurantes que pretendem receber clientes estrangeiros recorrem a "tradutores chutadores" que produzem deliciosos (lato sensu) dislates como este:


Ora, um anglófono que se depare com um cardápio destes certamente morrerá: ou de rir, ou de ódio ou de fome. Juro que eu teria muito medo de um lugar que serve giz de cera (crayon), uma lasanha de meias (stocking "lasanha"), ou páginas viradas de queijo ("turned pages of cheese").

Mas justiça seja feita: nós outros cá em Banânia somos arrogantes e queremos ser levados a sério com essas mal-ajambradas tentativas gastro-tradutórias. Os orientais em geral sabem que traduzem ainda pior, mas se divertem com as reações dos ocidentais angloparlantes ao mais perfeito Chingrish. Vejam isto:


"Garçom, quero uma porção de frango escorregadio em mingau de cogumelos". Bem, comparando lá e cá, não fazemos tão feio.

Eu fico hirto, pasmo e chocado com a tendência de traduzir tudo nos cardápios. Por que, meu Deus? Por que cacetes murchos eu traduziria "samba", "berimbau", "cuia", "pala", "lambada", "vatapá", "acarajé", "churrascaria", etc.? E não venham os "inteliquituais" me dizer que churrascaria é a mesma coisa que steakhouse. Uma churrascaria é mil vezes melhor. Conheço ambos os conceitos. Certas coisas são tão ligadas a uma cultura que é melhor deixá-las sem tradução mesmo. No máximo (e, sim, desejavelmente) deve-se apor uma explicação dos componentes do prato, tout court.

Mas, numa pesquisa rápida pelo Google, procurei saber como andam traduzindo para o inglês os nomes de clássicos da comida de boteco baixa gastronomia brasileira. Encontrei coisas de arrepiar os cabelos do Esperidião Amin.

NOTA AOS LEITORES MAIS DESATENTOS: Esta lista NÃO se trata de um glossário. Trata-se, sim, de como NÃO TRADUZIR para o inglês os nomes dos salgadinhos e outros acepipes.

Bolinhas de queijo > Cheese balls
Este foi o único caso em que a tradução parece aceitável. Para ser absolutamente correta, eu acrescentaria deep fried (fritas).

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Coxinha de galinha > Chicken drumstick
Bem, até o Google Translate embarca nessa canoa furada. Experimentem. Seja como for, explico a confusão. Um drumstick é uma coxa de frango (ou galinha, para os não-paulistanos) com o osso. O salgadinho, como todos sabem, é feito com frango moído ou desfiado, ou seja, não é uma coxa de frango e muito menos tem osso. A diferença é brutal. O mais correto é manter a palavra "coxinha" no item do cardápio. A explicação entre parênteses embaixo do item poderia conter algo como chicken thigh-shaped... Melhor explicar do que inventar.

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Patê de atum > Tuna spread
Pode-se até argumentar que a tradução está correta. Nos Estados Unidos, os tuna spreads levam aipo, picles picados, pimenta, etc. Mais uma vez, há diferenças - não tão brutais, mas a mensagem é transmitida de maneira errada.

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Ovo empanado > Coated egg
Esta foi um chute nos meus ovos peludos! Coated egg se refere a uma coisa totalmente diferente em inglês. "Ovo de casaca" ou, mais tecnicamente, "ovo revestido" é de um primarismo atroz. Eu até aceitaria breaded egg. O melhor, mais uma vez, é manter o nome em português e apor uma explicação do tipo "Brazilian-style breaded egg".

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Batata frita > Deep-fried potato, French fries
French fries eu aceito toto corde*. O problema está em "deep-fried potato", que se refere àquelas batatas cortadas em cunha. O que faz uma French fry ser uma French fry é mais do que o modo de preparo. A maneira de cortar a batata é fundamental.

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Quibe > Bulgar wheat meat balls
Para início de conversa "Bulgar" (1) se refere a uma pessoa que nasceu ou mora na Bulgária, ou ao idioma falando na Bulgária, e (2) é um substantivo, não um adjetivo. Além disso, "quibe" é de origem árabe, não búlgara.

Agora, vamos penetrar fundo (ui!) na psiquê do nosso querido aspirante a tradutor. Ele seguramente confundiu Bulgar com bulgur, que, em português, é "triguilho" (em árabe, برغل burghul). Quanto a meatballs, bem, todos sabem que uma almôndega (al-bunduqa, ou "a bola") não tem nada a ver com um quibe. Por incrível que pareça, a palavra árabe que deu origem a "quibe" é kubbah, cujo significado é "bola". Em inglês, a transliteração dessa palavra é kibbe ou kibbeh. Em espanhol argentino, diz-se quipe. Outros nomes desse prato vêm da palavra persa کوفته kofteh (literalmente "moído [carne]"), como içli köfte (em turco), իշլի քյուֆթա išli k’yuft’a (em armênio) e cafta (em português).

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Salsicha empanada > Coated sausage
Mais uma vez, o tradutor comete um crime tradutório. Breaded sausage é uma tradução muito melhor. E digo mais: a solução "esperta" de aproximar a salsicha empanada do corn dog é outro erro crasso, cometido apenas do tradutor que não tem idéia de como as iguarias são preparadas. Seja como for, coated sausage me remete a uma "salsicha encasacada". 

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De todas as iguarias dessa lista, apenas French fries será reconhecida imediatamente por quem não for lusófono. Minha filosofia de tradução é a seguinte: se não estiver quebrado, não tem sentido consertar. Em outras palavras, repito minha orientação de usar o nome original do prato no idioma em que ele foi criado, mas explicá-lo no idioma de destino (inglês, neste caso).

Vou dar alguns exemplos da minha experiência pessoal. Passei quase um ano na República Dominicana, onde se fala espanhol. Não é raro ir a um restaurante internacional no país e receber do garçom ou maître um cardápio em inglês. Os nomes dos pratos são, muitas vezes, traduzidos para o inglês. Eu sei o que é um "lomito saltado", um "tacu-tacu", etc. O problema é que cada restaurante traduz os nomes dos pratos da sua própria maneira. Seria tão mais fácil se eles usassem o nome original (os pratos dos exemplos que dei são peruanos). Se eles quiserem explicar em inglês, ótimo, mas devem indicar o nome original em destaque para que os clientes saibam de que cazzo estão falando. Em Los Angeles, na Califórnia, eu perguntei num restaurante argentino se eles tinham molho para o asado. O garçom me garantiu que eles tinham um molho feito com azeite, salsinha, cravo, suco de limão, tomilho, orégano, pimentão, etc. Eu me dei conta na hora de que ele acabara de me dar a receita do famoso "chimichurri". Por que ele não disse o nome logo no começo?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pagãos, um papa e a queda de Sauron: como entender o Ano Novo?

Alguns ateus, muçulmanos e cristãos fundamentalistas gostam de reclamar e chiar pelo fato de que as comemorações de Natal e Páscoa são “pagãs.” Eles estão, ao mesmo tempo, certos e errados. Eles têm razão na medida em que a nossa cultura ocidental tem raízes profundas nas culturas pré-cristãs da Europa. Mas eles também estão redondamente enganados, pois os primeiros cristãos, como os judeus antes deles, consideravam sua religião um contraste e uma correção da cultura pagã predominante à época.

Devemos ser iconoclastas culturais e expurgar todos os vestígios de paganismo do mundo moderno? Devemos abandonar nossas árvores de Natal e jogar no lixo os ovos de Páscoa? Se assim for, deveriam os anglófonos, por exemplo, adotar os nomes cristãos dos dias da semana em detrimento da homenagem às divindades pagãs Tiu (Tuesday), Odin (Wednesday) Thor (Thursday) Frige (Friday) e Saturno (Saturday), isso para não falar do culto ao sol e à lua (Sunday e Monday)?

A "purificação cultural" deveria continuar, exigindo que os nomes do meses do ano fossem expurgados de suas absurdas associações demoníacas e pagãs! Fora com Janus, o deus de duas caras de janeiro! Fora com Marte (de março), com a deusa Maia (de maio) e com Juno! Dia de Ano-Novo? O horror, o horror! A comemoração do início do ano em janeiro é pagã "do primeiro ao quinto"!

O conservador nunca deve ser um iconoclasta. Ele afirma que o passado é o alicerce do futuro. Nossa cultura ocidental está profundamente arraigada nas civilizações clássicas da Grécia e de Roma, mas também nas culturas pré-cristãs da Europa. Os costumes ancestrais se fundiram, desenvolveram e adaptaram às mudanças dos tempos, mas não devem ser desprezados simplesmente por serem pagãos ou por serem do passado. Um bom exemplo de como um costume de origem pagã se transformou numa comemoração hodierna é o Dia de Ano-Novo.

Os primeiros registros de uma comemoração de Ano-Novo datam de 2000 a.C., na Mesopotâmia. Depois, na época do patriarca Abraão, o novo ano era anunciado não no meio do inverno (do hemisfério norte), e sim no equinócio de primavera (também do hemisfério norte), em meados de março. Em consonância com esses costumes já ancestrais, o primeiro calendário romano tinha dez meses, e também reconhecia o mês de março como o início do ano. Daí os nomes dos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro: contando a partir de março, eles eram o sétimo, oitavo, nono e décimo meses.

Numa Pompílio, segundo rei de Roma, acrescentou janeiro e fevereiro ao calendário e, em 153 a.C., surgiu o primeiro registro da comemoração do Dia de Ano-Novo no primeiro dia de janeiro. A mudança foi decretada por motivos civis (os cônsules iniciavam seu mandato nessa época), mas muita gente continuava reconhecendo o mês de março como o início do ano.

Quando Júlio César substituiu o antigo calendário lunar em 46 a.C. por um calendário solar, ele também formalizou o início de janeiro como Dia de Ano Novo. Com a queda do Império Romano e a transição da Europa para a nova religião e o domínio do cristianismo, os vestígios da cultura pagã foram expurgados. O Dia de Ano-Novo no início de janeiro foi oficialmente eliminado pelo Concílio de Tours em 597 e, em toda a Europa, o início do novo ano passou a ser comemorado em várias épocas: Natal, Páscoa ou, a data mais significativa, 25 de março.

A data de 25 de março não apenas guardava relação com as comemorações mais antigas do novo ano no equinócio de primavera, mas, no calendário cristão, 25 de março corresponde à Anunciação, ou seja, o anúncio do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela geraria um filho. A data de 25 de março foi determinada pela crença judaica de que os grandes homens eram concebidos no mesmo dia do ano em que morreriam. Jesus Cristo morreu em 25 de março (segundo reza a teoria), ou seja, ele foi concebido em 25 de março. Por acaso, essa é, também, a origem da data tradicional do Natal – nove meses a contar de 25 de março.

Os cristãos da Idade Média achavam que o início da vida do Filho de Deus no útero da Virgem Maria era o início da obra de Deus entre os homens, a restauração e a redenção do mundo e o início de uma nova Criação. Portanto, era teologicamente adequado que o dia 25 de março, ou o dia da Anunciação da Virgem Maria, fosse comemorado como o Dia de Ano-Novo. E assim foi por mil anos.

Então, em 1582, o papa Gregório XIII reformou o antigo calendário de Júlio César. Em virtude de uma imprecisão de cálculo, a data da Páscoa era móvel, e o papa decidiu torná-la fixa. Uma parte da reforma consistia em restabelecer o dia 1º de janeiro como Dia de Ano-Novo. Por considerar essa reforma uma ousadia do papa, a Igreja Ortodoxa Oriental rechaçou a reforma. Por considerar essa reforma não apenas uma ousadia do papa, mas também a restauração do paganismo, os Protestantes também rechaçaram o novo calendário gregoriano. Os ingleses só adotaram o novo calendário em 1752. Os gregos mantiveram o calendário antigo até 1923. Os monges do Monte Atos ainda mantêm o calendário juliano.

O amável leitor deve estar se perguntando por que eu mencionei no título do artigo a queda de Sauron, inimigo do Senhor dos Anéis? J. R. R. Tolkien foi muito astuto na maneira como urdiu o simbolismo cristão na trama de seu mito épico. Ele registra as datas dos grandes acontecimentos no ciclo do anel, e descobrimos que é em 25 de março que o anel do poder é lançado nos fogos da Montanha da Perdição e, assim, a destruição de Sauron  anuncia um novo começo para a Terra Média. Dessa forma, Tolkien assina embaixo da tradição cristã medieval de que o dia 25 de março é o verdadeiro Dia de Ano-Novo.

Quem comemorou a entrada do novo ano nesta quarta-feira deve ter em mente que, por mil anos, essa comemoração não foi uma simples data em vermelho no calendário, mas sim um acontecimento cultural e religioso que vinculava a renovação da natureza com a redenção do mundo.