segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Como era Cuba antes de Fidel?


Esta semana eu refleti bastante sobre a decisão de Barack Obama de abrir os braços (e as pernas) para a quadrilha cubana dos Castro. Para falar desse assunto, é bastante útil lembrar que o maior perigo enfrentado pelas mentes livres hoje em dia é a reescrita calculada da História (basta ver a palhaçada da tal "Comissão da Verdade). A Rússia czarista, cuja economia crescia muito mais rápido do que a de qualquer país importante até 1914 e cujas realizações culturais equivaliam a uma Era de Ouro, é invariavelmente apresentada como um país horrível. A China republicana, o aliado mais essencial e desconsiderado na Segunda Guerra Mundial, que também tinha uma economia próspera e realizações científicas e artísticas dignas de nota, também é apresentada como corrupta e fraca.

Os marxistas se profissionalizaram em retratar seus antecessores como líderes de regimes desprezíveis cuja "libertação" pelos comunistas foi gloriosa e nobre. Portanto, não causa espécie que não saibamos quase nada sobre Cuba antes da chegada de Fidel Castro ao poder, e o que "sabemos" (ou achamos que sabemos) é pouco mais do que o tipo de caricatura tosca e disforme com que os esquerdistas radicais definem seus inimigos.

Como era Cuba antes de Fidel Castro? O país era governado por Fulgencio Batista, invariavelmente (e cretinamente) retratado como um "tirano de direita", mas não há "esquerda" nem "direita" que façam algum sentido na História moderna. A história de Batista demonstra bem essa verdade. Ele era mestiço de várias raças (negro, chinês, índio e espanhol), ao contrário do branquíssimo Fidel Castro. Batista trabalhou em plantações de cana de açúcar, ao contrário de Fidel, que levava uma vida confortabilíssima. Batista era de origem proletária, ao passo que Fidel era a burguesia em pessoa

Qual era a política de Batista? Ele se descrevia como um "socialista progressista" e, em 1934, muito antes de Fidel, foi o primeiro a legalizar o Partido Comunista em Cuba e colocar os comunistas em seu ministério. Quando ele venceu a eleição presidencial (livre) em 1940 por larga margem, o Partido Comunista apoiou abertamente Batista. Então, não admira que Sumner Welles, Subsecretário de Estado dos EUA, tivesse avisado o então presidente Franklin Delano Roosevelt que Batista era comunista.

Ao contrário dos comunistas, que eram favoráveis a Hitler até 22 de junho de 1941, Batista se opôs frontalmente a Hitler, mesmo durante a vigência do pacto Molotov-Ribbentrop. O governo de Batista tomou medidas mais duras contra a Quinta Coluna do que qualquer país latino-americano, e, quase sozinho na América Latina, incluiu a Falange Española entre as agremiações proibidas pelas leis que proibiam o quinta-colunismo.

Batista, ao contrário de Castro, deixou voluntariamente o poder quando seu sucessor eleito na eleição cubana de 1944 perdeu a presidência, embora tenha tomado novamente o poder em 1952, por meio de um golpe de Estado, nele permanecendo até Fidel Castro derrubá-lo sete anos depois. Quando Fidel começou sua campanha de guerrilha contra Batista, o Partido Comunista Cubano acusou Fidel de “putschismo”, numa comparação direta com Hitler e seu “Putsch da Cervejaria” em 1923.

A comparação era justa. O discurso mais famoso de Fidel teve como modelo o discurso “A História me Absolverá” de Hitler. Quem tiver interesse (e paciência) de compará-los, eis os links:

Fidel: http://bureau.comandantina.com/archivos/La%20Historia%20me%20absolvera.pdf
Hitler: http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/pdf/eng/NAZI_PUTSCH_TRIAL_ENG-.pdf

Fidel Castro tinha as obras completas de Mussolini e admirava profundamente o ditador espanhol Francisco Franco e, quando o Caudillo morreu, ordenou que as bandeiras em Cuba fossem hasteadas a meio-pau.

Mas chega de falar sobre as “ideologias” teóricas de Fidel Castro e Fulgencio Batista. Pensemos, agora, como os cubanos viviam sob o governo desses dois líderes personalistas? Sob o governo de Fidel, assim como sob os governos de Lênin e Stálin na Rússia e de Mao Tse Tung na China, milhões de pessoas tentaram desesperadamente sair de seu país para... qualquer outro lugar. Essa é uma característica dos totalitarismos modernos. Os cubanos não tentavam embarcar em pequenas balsas para fugir de Cuba no governo de Batista, como faziam no governo de Fidel (e ainda fazem sob o governo de seu irmão caçula).

Como os cubanos viviam na época de Batista? O padrão de vida dos cubanos, na época, era muito superior ao de qualquer outro país latino-americano. A alimentação em Cuba era melhor do que a de outros países do hemisfério ocidental, exceto pelos Estados Unidos e o Canadá. A mortalidade infantil na Cuba de Batista era menor do que na França ou na Itália. Batista criou unidades itinerantes de saúde para as zonas rurais. Ele estabeleceu o seguro industrial obrigatório para os trabalhadores e promulgou leis de salário mínimo e a jornada de trabalho de oito horas diárias.

O analfabetismo na Cuba de Batista era um dos menores da América Latina. Os cubanos também tinham mais rádios e televisores per capita do que qualquer outro povo latino-americano, e havia muitas estações de rádio e TV independentes que os cubanos podiam sintonizar para ter acesso a notícias e diversão. Também havia vários jornais e revistas independentes, inclusive criticando o governo de Batista.

Antes da praga castrista, Cuba não era perfeita, mas era muito melhor, de todas as formas, do que nos últimos 56 anos de miséria e trevas do desprezível regime dos Castro. O presidente Barack Obama, sem dúvida, não se importa em legitimar esse regime vil. Na verdade, é quase certo que Obama, cuja “formação” ocorreu inteiramente nos campos de reeducação (também conhecidos como "universidades"), não sabe praticamente nada sobre Cuba antes de Fidel Castro.

domingo, 5 de outubro de 2014

Não voto e, por isso, tenho todo o direito de reclamar.

Se você, assim como eu, não acredita em soluções através da política partidária, estou certo de que, em algum momento, ao discutir política, você já se deparou com um interlocutor que, peito estufado e ar soberbo, sentenciou: "Se você não vota, então não tem direito algum de reclamar!"
Essa afirmação tem um probleminha lógico de inversão de premissas. Explico detalhadamente para você, leitora não afeita às sutilezas da lógica formal.

Primeiramente, se eu não aceito a existência de uma coisa (no caso, uma instituição chamada 'governo'), onde está a lógica de participar de um ato que implica aceitar sua existência?  Onde está a lógica de participar de um ato que corresponde a assinar embaixo da existência desse esquema? E vou ainda mais longe: onde está a lógica de fazer tudo isso e ainda reclamar da existência deste algo que desprezo?

Exemplifico: se eu aceito me associar a um clube ou se aceito ser, por exemplo, prestador de serviços de qualquer espécie para esse clube, é implícito que eu aceito as condições, os estatutos, as regras e os valores do clube. Em outras palavras, fica subentendido que eu dou meu apoio à existência desse clube.

Mais um exemplo (e um pouco melhorzinho): se eu não gosto da culinária típica baiana (e não gosto mesmo - tenho até um certo trauma), eu não vou a restaurantes especializados nessa culinária. Simples assim. E como os proprietários dos restaurantes baianos não podem bater à minha porta e me obrigar a freqüentar seus estabelecimentos, então não há absolutamente nenhum motivo para eu reclamar de que o acarajé, vatapá e quejandos que servem é uma porcaria. Por outro lado, se eu, por minha vontade e por minhas pernas, for a um restaurante baiano, estarei deixando claro que quero receber a comida e o serviço que ele oferece.

Seguindo essa linha de raciocínio, se você é antipetista (coisa meritória por natureza) que defende a existência do Estado — mas, obviamente, não votou nem vai votar na Dilma —, não tem direito nenhum de reclamar de qualquer governo que seja, seja qual for o cacique de plantão. Afinal, o simples fato de votar em alguém (Aécio, Dilma, Marina, ou até no bigode do Fidélix) equivale a assinar um contrato cujas cláusulas exigem aceitar os resultados da eleição, independentemente de quem vença.

Sim, você pode reclamar de alguns aspectos pontuais do governo, da mesma maneira que, indo a um restaurante, eu posso reclamar do ponto da minha picanha, dizer que a alga do meu temaki não está crocante, ou que o garçom me atendeu mal. Da mesma forma, votar em alguém é a mesma coisa que entrar num restaurante: você aceita (de repente, até aplaude) a existência dele e do que ele oferece da mesma forma que aceita o sistema político vigente, com todos os possíveis resultados e as respectivas conseqüências.

É uma rematada cretinice dizer "Eu defendo a existência de um governo, mas não gosto das políticas do atual governo". Os governos atuam com algumas constantes: ordens, controle, espoliação (por meio de impostos) e redistribuição. A única variável é a intensidade dessas constantes (que são verdadeiros crimes) e as vítimas dessas constantes. Acontece que esses crimes nunca deixam de ser cometidos e as pessoas nunca deixam de ser espoliadas. Essa é a essência de todo e qualquer governo.

Por outro lado, se eu não aceito a legitimidade de um governo (e, além disso, não acredito ser necessário existir governo algum), então eu, e apenas eu, tenho o direito de reclamar de absolutamente qualquer coisa relacionada a este sistema nefasto. Apenas eu posso criticar, sem incoerência alguma, todo e qualquer aspecto desse monopólio ineficiente e corrupto que tenta me oprimir e espoliar sem que eu sequer queira ou peça os "serviços" que ele fornece.

Você, que defende a existência dessa entidade sórdida e espoliadora, mas acha que a cidade, o Estado ou o País poderia "ser gerenciado por pessoas melhores, mais honestas e mais competentes", deixo o meu reality check, amiguinho: você NÃO TEM DIREITO ALGUM de reclamar de qualquer aspecto negativo do governo. What you give is what you get. Você está recebendo exatamente aquilo que defende.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O que o Hamas quer?

O Hamas, facção que controla a Faixa de Gaza, tem um Estatuto que diz o seguinte: “As iniciativas, as assim chamadas soluções pacíficas e conferências internacionais para resolver o problema palestino se acham em contradição com os princípios do Movimento de Resistência Islâmica, pois ceder uma parte da Palestina é negligenciar parte da fé islâmica”.

De repente, o atual conflito entre Israel e a facção Hamas na Faixa de Gaza ganha contornos de clareza acachapante. Para avaliar a violência que se desenrola nos dias de hoje em Gaza, é bastante instrutivo entender não apenas como ambos os lados funcionam, mas como ambos os lados se definem e os objetivos de ambos os lados.

Embora o Hamas recuse o processo de paz, seu estatuto, redigido em 1988, propõe uma solução alternativa aceitável para o conflito: "Não há solução para o problema palestino a não ser pela jihad (guerra santa). Iniciativas de paz, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e uma farsa".

A inimizade do Hamas para com Israel não se deve às políticas nem às ações de Israel. Ela se deve à identidade e à simples existência de Israel. O estatuto prossegue: “Com isso, Israel, com sua identidade judaica, e o povo judeu estão desafiando o Islã e os muçulmanos”.

O estatuto não é nada vago em relação à maneira de lidar com os judeus ou com o Estado de Israel. Ele segue adiante: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por matá-los e mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: ‘Oh! Muçulmanos, Oh! Servos de Alá, há um judeu por detrás de mim, venha e mate-o, exceto se se tratar da árvore Gharkad, porque ela é uma árvore dos judeus.” (registrado na coleção de Hadith de Bukhari e Muslim)”.

E não pára por aí: “Em Seu nome, que guarda a alma de Maomé em Suas mãos, quero me lançar no ataque em prol de Alá, e ser morto, para atacar de novo e ser morto, e atacar de novo e ser morto)” (Registrado na coleção de Hadith de Bukhari e Muslim).

No recente conflito entre Israel e a Palestina, o Hamas se apresenta como a organização empenhada em destruir seu país vizinho. O Hamas lançou foguetes contra os centros populacionais israelenses, visando a alvos civis, não militares. O Hamas continuou lançando foguetes contra Israel durante uma trégua humanitária, e o Hamas recusou a oportunidade de trégua.

Foi somente dez dias depois de ser bombardeado pelo Hamas e reagir com sistemas de defesa antimíssil e ataques aéreos que Israel finalmente reagiu com uma ofensiva por terra. Ocorre que, durante essa ofensiva e os ataques aéreos retaliatórios a antecedeu, Israel empregou todos os meios em seu poder para demonstrar moderação e diminuir o número de baixas civis entre os palestinos.

Como o New York Times confirmou, Israel tentou diminuir o número de baixas civis, lançando folhetos de advertência para que os cidadãos evacuassem as áreas, fazendo telefonemas para os edifícios que seriam atacados, e até mesmo disparando sinalizadores ou mísseis sem carga contra os tetos palestinos para deixar claro aos moradores que os militares não estão brincando quando dizem que estão para atacar.

Como o Hamas reagiu? “A todo o nosso povo que evacuou suas casas: voltem imediatamente a elas e não as abandonem”, foi o comando do Ministério do Interior do Hamas.

Comentando o problema no mesmo artigo, o Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou, “É necessário entender como o nosso inimigo atua. Quem se esconde nas mesquitas? O Hamas. Quem cria arsenais sob os hospitais? O Hamas. Quem instalou centros de comando em residências ou perto de escolas de educação infantil? O Hamas. O Hamas está usando os moradores de Gaza como escudos humanos e levando o desastre aos civis. Portanto, o Hamas e seus aliados são os únicos responsáveis por todos os ataques aos civis de Gaza, o que lamentamos”.

Por mais trágicas que sejam as baixas civis palestinas, não há dúvida de que Israel está fazendo tudo o que está a seu alcance para evitar baixas em sua ofensiva contra o Hamas, ao passo que o Hamas está tomando a iniciativa de pôr em risco as vidas civis do seu próprio povo.

Se alguém tem a vantagem moral nesse conflito, esse alguém é Israel. Ao contrário do que os ativistas burros míopes se comprazem em clamar, Israel não é um Estado opressor e racista. Ao contrário, ele proporciona liberdades a cidadãos de todas as etnias, além de liberdade religiosa para judeus, cristãos e muçulmanos. Reagindo aos levantes da Primavera Árabe de 2011, o Primeiro-Ministro Netanyahu declarou:
“Corajosos manifestantes árabes estão lutando com dificuldades para assegurar esses mesmos direitos para seus povos, suas sociedades. Estamos orgulhosos de que mais de um milhão de cidadãos árabes de Israel desfrutam desses direitos há décadas. Dos 300 milhões árabes no Oriente Médio e norte da África, somente os cidadãos árabes de Israel desfrutam de direitos democráticos efetivos”.
No mesmo discurso, o Primeiro-Ministro Netanyahu afirmou:
“Todos os seis premiês israelenses desde a assinatura dos acordos de Oslo concordaram com a criação de um Estado palestino. Eu inclusive. Então, por que a paz não foi alcançada? Porque, até agora, os palestinos não se dispõem a aceitar um Estado palestino se isso significa aceitar um Estado judeu ao lado. 
Vejam, nosso conflito jamais teve a ver com a criação de um Estado palestino, mas sempre envolveu a existência do Estado judeu”.
Um comercial de televisão de 2012 do Hamas capta essa verdade com precisão. O comercial diz: “O preço será alto, filhos de Sião. Vocês estão dispostos a pagá-lo...? Toda a Palestina é nossa. Aqui não há nada para vocês além de morte. Aqui vocês só precisam ser mortos e irem embora... Se vocês estenderem seus braços até [nós], eles serão cortados. Se seus olhos olharem [para nós], eles serão arrancados... Na terra à qual vocês vieram para viver, vocês acabarão despedaçados. Essa é a promessa de Alá”.

Seria uma mentira afirmar que Israel é perfeito ou incapaz de fazer o mal. Mas a diferença de autoridade moral entre Israel e Hamas é clara. Israel é um farol de democracia e liberdade no mar revolto do Oriente Médio. O  Hamas é um grupo de terroristas cujo objetivo declarado é destruir o Estado de Israel.

Israel, por outro lado, está disposto a resolver o conflito israelo-palestino através de uma solução de dois Estados. Dirigindo-se ao presidente palestino Mahmoud Abbas, integrante da facção Fatah, não do Hamas, o premiê Netanyahu disse: “Então, digo ao Presidente Abbas, ‘Rasgue seu pacto com o Hamas, sente-se para negociar, faça a paz com o Estado judeu. Se o fizer, prometo o seguinte: Israel não será o último país a aceitar de bom grado um Estado palestino como novo membro da Organização das Nações Unidas. Ele será o primeiro a fazê-lo’”.

Não devemos cometer o erro de colocar Israel e o Hamas no mesmo nível moral. Não podemos mais passar a mão na cabeça do Hamas com o nosso silêncio.

Devemos, sim, dizer a verdade sobre o Hamas com base no seu próprio objetivo declarado de existência e seus próprios atos observados. Eu, de minha parte, estou firme ao lado de Israel, uma nação que sabe se defender do terrorismo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre foguetes, fronteiras e "proporcionalidade"

No mês de janeiro, terroristas emboscaram um trem, seqüestrando 18 civis inocentes e assassinando-os impiedosamente a sangue frio. Algumas semanas depois, 1.500 terroristas mais uma vez cruzaram a fronteira e realizaram outro ataque brutal, saqueando uma cidade e deixando mais 19 mortos nas ruas.

O governo, obrigado a suportar vários ataques violentos, finalmente reagiu, enviando 6.000 soldados para atravessar a fronteira e matar ou prender o máximo possível de terroristas, principalmente o líder bárbaro do grupo.

Quem estuda (a sério) um pouco de História já entendeu do que estou falando. Esses fatos ocorreram de  verdade em janeiro de 1916. O líder, que hoje seria chamado de terrorista, não era Ismail Haniyeh do Hamas, mas sim Pancho Villa. O governo era o dos Estados Unidos, o massacre aconteceu em Columbus, no estado do Novo México. E o contingente de 6.000 soldados comandados pelo General John Pershing foi enviado ao México a mando do presidente Woodrow Wilson. Acreditando por engano que os norte-americanos seriam recebidos de braços abertos pelos mexicanos por ajudá-los a se livrar do corrupto ditador Venustiano Carranza, Wilson, surpreso, foi difamado e os militares comandados por Pershing, sob incessante ataque, foram obrigados a bater em retirada de volta aos Estados Unidos, sem conseguir capturar Pancho Villa.

Mesmo assim, do ponto de vista da segurança dos EUA, a missão de proteger a fronteira foi cumprida. Embora tivesse vivido o suficiente para ser assassinado em 1923, Pancho Villa nunca voltou a invadir o território dos EUA.

A opinião européia foi contundente: “Pela primeira vez caiu a máscara do pretexto atrás da qual se escondiam os desígnios do imperialismo americano”. O Paris Journal escreveu: ”A conquista do México começou”.

Nesta semana, a incursão de Israel por terra em Gaza também é uma reação a incessantes incursões, ataques terroristas e salvas de foguetes de um inimigo muito mais determinado do que foram os mexicanos. Assim como Wilson, O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu está sendo acicatado por invadir Gaza para acabar com o terror implacável enfrentado por seus cidadãos desde que abandonaram esse enclave nove anos atrás.

Ao contrário de Wilson, Netanyahu está enfrentando um inimigo messiânico que, a menos que seja incapacitado, seguirá inabalavelmente realizando ataques ao seu país. Como fizeram com Wilson, a França e outros países vão espernear e protestar, assim como a ONU, mas Netanyahu, reconhecendo a liderança irresponsável tanto em Washington quanto na Europa, tomou as medidas unilaterais que considerou necessárias para garantir a tranqüilidade de longo prazo dos seus cidadãos. 

É muito cedo para avaliar como será o cenário político depois que as armas silenciarem, mas aceitando dois cessar-fogos rapidamente quebrados pelo Hamas, Netanyahu conseguiu com brilhantismo o respaldo político de que precisava para levar adiante seus objetivos com um "efeito bumerangue" comparativamente pequeno do mundo em geral.

Com o tempo, algumas pessoas podem olhar para trás e pôr a culpa deste último conflito no seqüestro e assassinato dos três adolescentes judeus. Isso não seria correto. Sem contar o eterno bombardeio e as tentativas de seqüestro após o cessar-fogo de 2012, O Hamas lançou, só em 2014, 180 foguetes contra Israel. Isso sem contar as centenas disparadas desde o início das hostilidades generalizadas no início deste mês. Embora não haja dúvida de que foram um catalisador, os assassinatos de Eyal Yifrah, Gilad Shaar e Naftali Frenkel não foram a causa desta guerra.

Olhando para trás, os detratores de Israel provavelmente darão pouquíssima atenção ao abominável uso de escudos humanos pelo Hamas para salvar seus líderes covardes e sua infra-estrutura, mas se concentrarão nos apelos às FDI (Forças de Defesa de Israel) para usar a “proporcionalidade”, embora ninguém seja capaz de definir exatamente o que isso significa.

Como em todas as guerras, este conflito terá baixas. Mas o alvoroço da França e dos suspeitos de sempre é desproporcional à sua voz em relação aos assassinatos em massa que ocorrem todos os dias na Síria e no Iraque, além da derrubada, na última quarta-feira, do vôo MH17 da Malaysian Airlines, com a morte de 298 pessoas. Parece que a simples autodefesa de Israel dá convulsões no corpo do mundo hoje em dia.

Na sexta-feira, a mando da Jordânia e do Primeiro-Ministro turco Recep Erdogan (o mais novo defensor dos terroristas), foi convocada uma sessão do Conselho de Segurança da ONU,. mas não para condenar os incessantes ataques de foguetes do Hamas, nem seu uso depravado de escudos humanos, nem para censurar o Irã por fornecer ao Hamas foguetes capazes de atingir todo o território de Israel. O CS se reuniu para protestar contra a ferocidade da reação de Israel ao impiedoso bombardeio e às tentativas dos terroristas de entrar em Israel por meio de túneis para massacrar os kibbutzim, como ocorreu nesta semana. Sem mencionar nada disso, Jeffrey Feltman, o subsecretário da ONU, tuitou o seguinte “A solução para Gaza é acabar com o contrabando de armas, liberar a travessia e devolver à AP [Autoridade Palestina] o controle de Gaza”.

Infelizmente, Feltman se esqueceu de dizer como acabaria com o contrabando de armas se as travessias fossem liberadas, e que a Autoridade Palestina já havia sido expulsa de Gaza antes sem a menor cerimônia.

De sua parte, e fiel ao seu hábito de hesitar e julgar, o Presidente Obama defendeu o direito de Israel à autodefesa, mas se equivocou ao dizer que “intensificar a ofensiva com forças terrestres pode aumentar o número de mortes e minar qualquer esperança de um processo de paz com os palestinos”. Mas... essa conversa me parece bastante familiar. 

Vejam o que ele disse em 18 de novembro de 2012 durante uma visita à Tailândia, em meio à conflagração daquele ano entre o Hamas e Israel. “Israel tem todo o direito de se defender contra ataques de mísseis lançados por militantes em Gaza”, mas também fez a ressalva de que a intensificação da ofensiva com forças terrestres poderia minar qualquer esperança de um processo de paz com os Palestinos. Ele deve ter guardado uma cópia desse discurso antigo.

Ante o fracasso do cessar-fogo de 2012, outro homem poderia ter voltado atrás na mesma política pela segunda vez. Mas não Obama. Como seu colegas europeus, ele dobrou a aposta, buscando o mesmo cessar-fogo que o Hamas sempre desrespeitou, causando este conflito mais intenso. Seu Departamento de Estado concordou.

Ao advertir ambos os lados, Jen Psaki, do Departamento de Estado, descobriu entre Israel e o Hamas uma equivalência que não existe. “Continuamos instando todas as partes a fazer tudo o que puderem para proteger os civis”. Como se houvesse equivalência moral entre terroristas que se dedicam à prática bárbara de lançar foguetes a partir de residências, estocar armas em hospitais e mesquitas, e obrigar as pessoas a subir em telhados como escudos humanos e Israel, que avisa a população de Gaza antes de lançar um ataque. 

“Continuamos instando todas as partes a fazer tudo o que puderem para proteger os civis”, disse ela aos repórteres. “Ficamos decepcionados com o alto número de mortes de civis em Gaza”. Não há dúvida de que isso foi um tapa na cara de Israel. Seria muito bom se um repórter perguntasse se ela conhece algum outro exército que despeja folhetos, faz telefonemas e presta auxílio médico para salvar civis inimigos. 

Citando uma conversa entre seu chefe cada vez mais frustrado John Kerry e o Primeiro-Ministro Netanyahu, Psaki advertiu: “Israel pode fazer muito mais para evitar baixas civis, e deve redobrar seus esforços”. Nem ela, nem Kerry nem Obama pensaram no que Israel, no calor da guerra, pode fazer contra um inimigo misturado entre a população civil.

Esse mesmo recado foi dado no dia 18 de julho pela cada vez menos relevante União Européia e seus 28 Estados-membros. Eles, também, expressaram seu hipócrita apoio aos disparos de foguetes do Hamas contra Israel,  mas exigiram uma investigação das mortes de 307 civis (números da semana retrasada): “Condenamos a continuidade dos disparos de foguetes de Gaza contra Israel pelo Hamas e por outros grupos militantes, e o ataque indiscriminado a civis.” Desde 2005, o Hamas não fez nada além de atacar civis indiscriminadamente, mas a União Européia está investigando Israel. 

Eles concluíram dizendo que “ambos os lados devem diminuir a intensidade da situação e acabar com a violência e o sofrimento das suas populações”. Como se toda essa bagunça não pudesse cessar imediatamente no momento em que os foguetes dos terroristas parassem de cair sobre Israel. 

Assim como o presidente Wilson em 1916, o Primeiro-Ministro Netanyahu tem a obrigação de defender suas fronteiras e proteger o povo que ele foi eleito para proteger. Se ele fizer isso, a queda do Hamas poderá ser um efeito colateral pelo qual o povo de Gaza poderá finalmente, ter um pouco de paz.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Proporcionalidade" em Israel e Gaza?

Muita gente pode achar que o número de mortes em Israel é baixo comparado com os mais ou menos 180 palestinos que morreram em Gaza nas últimas semanas. Aposto um sushi que os esquerdistas vão mencionar a proporção de baixas entre civis e militares publicada pela ONU, que, dizem, consiste em 70% de civis.

De onde vieram esses números? Do Hamas. Não causa espécie que o Tenente-Coronel Peter Lerner, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) tenha contestado esses números. Na verdade, de onde mais eles poderiam ter vindo? O Hamas comanda a Faixa de Gaza. A BBC acabou de levar uma bronca por fornecer fotos falsas de Pallywood... ou Gaza, como a região também é conhecida.

Essa “falta de proporcionalidade” (como os acadêmicos ocidentais muitas vezes colocam) tem um motivo que aparentemente foi ignorado por Manuel Hassassian (um enviado da Autoridade Palestina ao Reino Unido), quando ele disse:
“Não há abrigos, casamatas, não há para onde ir a não ser para casa.”
Israel construiu muitos abrigos contra ataques aéreos e outros meios de proteção para seus cidadãos. O país também usa alertas de ataque aéreo para reagir aos ataques do Hamas com foguetes. O Hamas, por sua vez, não oferece nada disso ao seu povo.

A outra coisa é que o Hamas posiciona deliberadamente seus combatentes entre a população civil de Gaza, como todos sabem muito bem e já está muito bem documentado.

Qual é o motivo das políticas suicidas do Hamas?

O motivo principal é que a tal da Fraternidade Muçulmana quer que algumas (ou até mesmo muitas) pessoas do seu povo morram.

E por que o Hamas quer isso?

Há vários motivos, embora o principal seja a reação a essas mortes no Ocidente, por exemplo, a reação dos 600 manifestantes (principalmente muçulmanos e estudantes esquerdistas) que tomaram as ruas de Bradford (no norte da Inglaterra) no último fim de semana.

Em outras palavras, as mortes dos palestinos fazem muito bem no Ocidente para a causa palestina. (Principalmente no caso dos estudantes/ativistas de esquerda e seus mentores nas universidades). E esse é um dos motivos pelos quais o Hamas não oferece abrigos ao seu povo.

Eu falo da esquerda radical/marxista porque ela define praticamente toda a pauta quando se trata de Israel e Gaza, seja em termos das teorias marxistas sobre Israel (que até os não-esquerdistas e nazistas usam) ou das freqüentes manifestações e dos movimentos contra Israel, que são quase todos comandados por trotskistas. Na verdade, as mesmas caras trotskistas (PSTU, PSOL, PCO) pululam sem parar, seja em manifestações "Contra a Guerra", "Pelo Respeito", de boicote a Israel, ou o que seja.

O outro aspecto importante que que deve ser lembrado é que, segundo a teologia/ideologia do Hamas, cada palestino morto pelos israelenses é automaticamente alçado à categoria de mártir do Islã. Além disso, outro slogan bem conhecido do Hamas diz "Amamos a morte mais do que a vida".

Os palestinos também afirmam que “não têm aonde ir” durante os ataques aéreos de Israel. Mas isso também é uma meia-verdade porque Israel avisa sobre os ataques com antecedência (leiam meu post anterior). Por exemplo, outro dia, as forças israelenses lançaram folhetos na cidade de Beit Lahiya, em Gaza, avisando sobre ataques aéreos futuros.

Apenas civis?

Nem o salto triplo carpado de imaginação mais radical permite dizer que Israel dirige seus ataques aos civis palestinos. Por exemplo, na última segunda-feira, Israel atingiu três acampamentos de treinamento do Hamas na cidade de Gaza. Israel também atacou depósitos de armas e destruiu vários quartéis-generais de segurança e delegacias de polícia do Hamas. No fim das contas, as FDI atingiram aproximadamente 1.320 localidades do Hamas em Gaza.

Seja como for, os muçulmanos prefeririam uma invasão por terra? É óbvio que não. O que eles prefeririam mesmo seria que não existisse Israel nem judeus na “terra do Islã”. E aqui não estou falando apenas da "Palestina", mas também da Síria, do Iraque, da Argélia, etc. Na verdade, os judeus já sofreram uma limpeza étnica na Arábia Saudita, na Líbia, na Jordânia e em outros países árabes. Assim, foi cumprida a promessa do Profeta Maomé: "Expulsarei os judeus e cristãos da Península Arábica e não deixarei senão muçulmanos". Está lá escrito no Sahih Muslim; livro 21, "Sobre as Expedições Militares"; capítulo 43 "O que foi narrado sobre a expulsão dos judeus e cristãos da Península Arábica". E cito (e traduzo) o original:


E narrou Musa bin Abdul Rahman Kindi, nos disse Zaid bin Hubab, disse o Revolucionário Sufian, Abu Zubair, Jaber, Umar ibn al-Khattab, que o Mensageiro de Alá, a paz esteja com Ele, disse, "Enquanto eu viver, se Alá quiser, expulsarei os judeus e cristãos da Península Arábica".

Então, como os muçulmanos chegaram ao ponto até de tentar islamizar diversas cidades ocidentais, como Bradford, Birmingham, Malmö, Oldham, Roterdã, Oslo, Marselha e Paris, não fico surpreso por eles levarem a islamização (e, portanto, a limpeza étnica de judeus e cristãos) do mundo árabe ainda mais a sério.

Por que Israel?

Como disse no começo deste post, mais ou menos 180 palestinos foram mortos no estágio mais recente da guerra entre Israel e a Palestina.

Vamos comparar esse número com os 100 mil (ou mais) que morreram na Síria desde 2011; e com a carnificina no Iraque em virtude da tentativa de islamização levada a cabo pelo ISIS (Estado Isâmico do Iraque e do Levante) no Iraque. E não podemos nos esquecer dos recentes e já históricos genocídios islâmicos no Sudão entre 1991 e 2002, nos quais um milhão e meio de cristãos e animistas foram assassinados pelo regime islâmico de Cartum e pelos jihadistas de Jangaweed; e também há a guerra civil argelina entre 1991 e 2002 (até 150 mil mortes). Ainda por cima, há os conflitos intra-muçulmanos, perseguições islâmicas e ações freqüentes de terrorismo islâmico no Iêmen, no Paquistão, na Somália, na Nigéria, no sul da Tailândia, nas Filipinas, na Líbia... Essencialmente, onde houver muçulmanos vivendo ao lado de não-muçulmanos, haverá conflito. A rigor, existe conflito até mesmo onde os muçulmanos vivem lado a lado com muçulmanos de uma seita diferente.

Então, por todo o mundo hoje em dia (e na História recente), morreram literalmente milhões no incessante processo de islamização e limpeza étnica (de cristãos e judeus) tanto no mundo árabe quanto no mundo muçulmano em geral. Mesmo assim, como sempre, o tratamento racional e compreensível dado por Israel ao Hamas (que deliberadamente se esconde entre a população civil) continua ocupando muito tempo dos noticiário (mesmo quando ele não é pró-palestino).

E isso deve ser porque muitos ocidentais consideram o conflito israelense-palestino uma manifestação diferenciada e muito pior do que todos os outros conflitos que eu acabei de mencionar.

Por que isso acontece?

Principalmente porque a esquerda ocidental (e os esquerdistas mais confusos que continuam obtendo da esquerda radical uma grande parte da sua "teoria" sobre Israel) está claramente obcecada tanto com Israel quanto com o tratamento que Israel dispensa aos palestinos. Grande parte dessa monomania decorre literalmente de uma "modinha" política (ou pura e simplesmente de uma "modinha"). No entanto, esse vanguardismo político é, em si, fundamentado no ódio da esquerda radical ao capitalismo; em seu ódio ao nacionalismo (mas nunca, é claro, ao nacionalismo palestino, africano e outras formas de nacionalismo); e em sua profunda desconfiança do que ela chama de “democracia capitalista”; e tudo isso é personificado em um, e apenas um, Estado do Oriente Médio: Israel.

Para concluir, por que o Hamas intensificou recentemente seus ataques com foguetes contra Israel?

Isso tem pelo menos alguma coisa a ver com a tentativa do Hamas de tirar proveito das guerras sunitas que estão ocorrendo na Síria e no Iraque. Na verdade, os ataques com foguetes a Israel já foram realizados a partir da Síria.

O Hamas e o ISIS têm muito em comum. (Há boatos de que o ISIS já está em Gaza e lutando com o Hamas). No entanto, o Hamas, sendo da Fraternidade Muçulmana, tem ainda mais coisas em comum com os muitos “rebeldes” da Fraternidade Muçulmana que lutam na Síria. E é essa mesma gente que Barack Obama está financiando e treinando.

A diferença moral entre Israel e o Hamas

Uma palestina idosa chora a morte de parentes do lado de fora de um hospital em Khan Yunis, na parte sul da Faixa de Gaza em 16 de julho passado.
O que a maioria dos brasileiros (e do mundo) ouve sobre o atual conflito entre Israel e o Hamas é mais ou menos isto: “125 palestinos, a maioria deles civis, foram mortos pelo incansável ataque de Israel à Faixa de Gaza. Nenhum israelense foi morto até o momento”. Pode até ser verdade, mas o contexto fica completamente esquecido. É preciso prestar atenção às metodologias de ambos os lados.

O Hamas arma lança-foguetes, além de depósitos de suprimentos e postos de comando e controle, no meio de edifícios de apartamentos, mesquitas e escolas. Desses locais, os combatentes lançam dezenas de salvas de foguetes contra centros populacionais, sem qualquer tipo de distinção. Ultimamente, eles têm disparado quase sem parar. Mas normalmente eles disparam quando as crianças israelenses estão saindo de suas casas (que contam com abrigos seguros) para as escolas, que também têm abrigos. Eles fazem isso deliberadamente para tentar atingir as crianças desprotegidas. Eles não se preocupam em diminuir os danos colaterais. Na verdade, o que eles procuram é aumentar esses danos.

Israel, por outro lado, dispara apenas contra alvos militares específicos, definidos através de coleta de informações. Como esses alvos são deliberadamente misturados com a população civil pelo Hamas, Israel deve tomar providências para diminuir as baixas colaterais.

Antes de atacar um edifício, Israel telefona para o número fixo do edifício e para os celulares em nome dos moradores do edifício (e os celulares também recebem mensagens de texto), informando que, dali a alguns minutos, o edifício será bombardeado. Finalmente, para ter certeza de que todos receberam o recado, Israel lança uma bomba sem carga explosiva sobre o telhado da estrutura. Alguns minutos depois, o edifício é destruído. Não há notícia na História militar moderna de que um exército tenha tomado medidas tão amplas para dar aos inocentes as maiores oportunidades de sair do caminho. Não existe “precisão cirúrgica” maior entre as Forças Armadas modernas.

Além disso, Israel desenvolveu seu tão alardeado (e com razão) sistema de defesa contra foguetes chamado "Cúpula de Ferro", que torna sem efeito a maioria dos ataques do Hamas. Com a Cúpula de Ferro, que abate os foguetes que, de outra forma, poderiam causar muitos estragos, e o aplicativo “Alerta Vermelho”, que alerta os civis em tempo real, pelo celular, quando um foguete terrorista é lançado e para onde ele está indo, as baixas civis em Israel têm sido desprezíveis.

Israel só quer que o deixem em paz. O Hamas quer destruir Israel. Não há nenhuma equivalência moral nesse cenário, e as táticas dos dois lados comprovam o meu argumento.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Malévola": um filme malévolo

ATENÇÃO: ESTE ARTIGO CONTÉM REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO. SE AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME COMENTADO, SUGIRO QUE PARE DE LER AGORA.



Na última terça-feira, logo após a partida Brasil x México, fui ao cinema (Cinemark do shopping Metrô Santa Cruz) e, após breve “reunião deliberativa” com minha namorada, decidimos por comprar ingressos para “Malévola” (título original “Maleficent”).

Após 1h37 de exibição, terminado o filme, saí do cinema bastante incomodado com o enredo do filme. Explico.

Contos de fadas “adaptados” já são tradicionais na cultura popular dos Estados Unidos. Jay Ward ficou famoso por um segmento exatamente com esse título no seu desenho animado “As Aventuras de Alceu e Dentinho” (The Adventures of Rocky and Bullwinkle). Mesmo nas doses homeopáticas administradas por Jay Ward, os contos de fadas privados de seu teor dramático original por meio de ironias, alusões, referências populares e, é claro, linguagem coloquial, acabaram se transformando em peças ao mesmo tempo banais e banalizantes. Muitas vezes tive a impressão de que eles diziam “Escuta, você não tem nada melhor para fazer? Acho que tenho aqui uma historinha, mas não espere muita coisa dela, está bem?”

Como acontece com tudo o que é banal, Hollywood pegou o conto de fadas adaptado e o amplificou a proporções astronômicas. Infelizmente, as proporções só fazem destacar a falta intrínseca de significado do produto e a condescendência com que os produtores passaram a encarar o público. Algum estudante de algum curso de Cinema pode acabar escrevendo uma tese (ou, vá lá, um TCC) sobre os significados mais profundos das animações “Shrek” (da Dreamworks) ou “A Onda Nova do Imperador” (da Disney) – e, o que é pior: tenho certeza de que alguém já fez isso, e, se fez, aposto dez contra um desconfio que foi na Escola de Comunicações e Artes da USP), mas o resultado seria um monstruoso vácuo intelectual.

E agora, nas telonas brasileiras, temos Malévola. Trata-se da reductio ad nauseum (para “adaptar” uma expressão) dos contos de fadas. O filme (bem, chamá-lo de filme é exagerar sua importância) é “produzido” e “estrelado” por Angelina Jolie, uma anoréxica que já foi atraente e que permanece igualzinha quanto à sua falta de talento perceptível como atriz. Malévola nem sequer se preocupa em indicar suas várias adaptações (ironias e alusões exigem um esforço demasiado). A produção é, na verdade, um negócio tão improvisado, que despreza tanto o público e o conto A Bela Adormecida que ela corrompe, que fico imaginando como os roteiristas conseguiam ficar acordados durante o trabalho. A rigor, é terrivelmente irônico que o filme tenha passado por tantas mudanças de roteiro e até mesmo de filmagem. Só posso imaginar que o resultado teria sido uma história tão esquisita, complicada e chata que os produtores acharam melhor simplesmente arrancar tudo o que fosse além do minimum minimorum de uma história que pretende “corrigir” o conto original.

Não se trata de uma história de “comédia”, então fomos (bastante) poupados de qualquer tentativa de humor da Angelina Jolie ou dos adereços ao seu redor na tela. O que vimos foi um “conto moral” tão tosco que foi incapaz sequer de suscitar a ira de qualquer adulto (ou adolescente) pensante que estivesse na sala de cinema.

O filme certamente nos mostra que a Bela Adormecida (Princesa Aurora) foi amaldiçoada não por uma fada má, mas por um Papel Feminino Forte que foi não apenas desprezada, mas também traída e mutilada por um idiota mentiroso determinado a usá-la para conquistar poder e riqueza. Embalada por uma falsa sensação de segurança criada por declarações de afeto, Malévola adormece e suas asas (negras) são cortadas. Com certeza o criminoso não é capaz de demonstrar remorso verdadeiro, e usa sua deslealdade para conquistar o trono de sua terra e procurar destruir a terra mágica governada por Malévola. Quase sem dúvida alguma (poderia dizer “previsivelmente?”) a fada boa (e Papel Feminino Forte) Malévola é levada quase à loucura e a um ato imprudente e hostil do qual ele logo se arrependerá. Tendo amaldiçoado a filha do rei a cair em sono eterno ao final do seu décimo-sexto aniversário (a menos que seja salva por um Beijo de Amor Verdadeiro, no qual ela não acredita mais), Malévola “amolece”, como era de se esperar. Enquanto seus súditos sofrem, ela (é claro) cuida da criança e acaba amando-a. E, com certeza, nossa heroína se redime no final, mostrando sua força, a fraqueza final do homem ganancioso que, no fim das contas, age movido por medo e culpa, restabelecendo a paz e o bem-estar para si, sua terra e o belo adereço de cena que é a Bela Adormecida.

Malévola até mesmo nos oferece uma cena em que um belo príncipe se mostra impotente para despertar a Bela Adormecida ao tentar curá-la com o Beijo de Amor Verdadeiro. Não tenho dúvida de que esse último toque tinha a intenção de surpreender o público. Mas não há tensão nenhuma na cena. Ficamos sabendo, a essa altura, que, nesse mundo, os homens têm pouco a oferecer além de sofrimento. E tudo isso é tão improvisado e terrivelmente “conveniente” que a mensagem politicamente correta é incapaz de comover a ninguém.

No final, como é de praxe, nos é servida uma cena de vitória, estando o Príncipe seguro em segundo plano, e Malévola reunida com a Bela Adormecida, a qual ela mesma despertou com seu beijo. Talvez, se os produtores tivessem esperado mais um ou dois anos para fazer esse filme, as moças teriam se casado. Mas não importa. Na verdade, nada nesse filme importa. Ele não passa de mero espetáculo. Uma coleção de efeitos especiais (o dragão é muito legal mesmo!) e cenas de luta bem desajeitadas servem para prender nossa atenção por tempo suficiente para comer a pipoca e beber o refrigerante. Além disso, e do desejo de “dar o recado” pelo próprio fato de ter um Papel Feminino Forte predominante, o filme não tem absolutamente nada que seja sequer digno de repulsa intensa. Talvez se os produtores tivessem mantido os personagens extras esquisitos o filme teria sido pelo menos detestável, mas até nisso ele fracassa.

Eu assisti a outro filme da Disney, ”Frozen: Uma Aventura Congelante”, e ele merece todos os meus elogios. A animação foi menos um conto de fadas adaptado do que uma história original inspirada por uma maravilhosa narrativa à la Hans Christian Andersen. Mas, em Frozen, existe narrativa e coerência normativa. A vitória é conquistada através do amor de uma irmã pela outra e a heroína ganha não apenas o amor da família, mas também uma abertura mais amadurecida para a possibilidade de um verdadeiro amor romântico. Os roteiristas de Frozen criaram uma bela história que pretendia apresentar uma virtude verdadeira. Em Malévola, a Disney enveredou por um caminho que a está tornando cada vez pior do que já é. Previsto, sem dúvida alguma, como mais um “filme subversivo” (como “Pocahontas”) que golpeia as normas tradicionais, o resultado final prevalece até mesmo sobre a correção política rastaqüera.

Malévola é literalmente degradante em todos esses aspectos, e sua atitude ficou tão comum que deixa evidente uma cultura degradada. A opinião dos produtores do filme parece ser que eles têm direito – desde que preguem as atitudes “certas e tenham um Papel Feminino Forte – de abrir mão de qualquer história real e bem trabalhada que mostre emoções e motivações reais que exponham tanto virtudes como vícios reais.

Quanto ao Papel Feminino Forte, é cada vez mais comum na nossa sociedade que todos afirmem exigir que todas as mulheres sejam “fortes” no estreitíssimo e limitadíssimo sentido de serem capazes de realizar atos vigorosos, exibir emoções fortes e sair derrubando tudo à sua volta. É triste observar que, para muita gente (especialmente hos homens) na nossa cultura, mulheres “fortes” são mulheres que podem ser usadas e descartadas sem remorso porque são “iguais” e “responsáveis por suas próprias vidas”, como se todos não fôssemos, no fim das contas, responsáveis uns pelos outros. A mulher realmente forte na nossa atual sociedade é aquela capaz de dar a uma bobagem tão pedante quanto esse filme o valor que ela realmente tem: doutrinação dirigida a privá-las de sua natureza humana e afastá-las de vocações mais elevadas, rebaixando-as ao nível dos reduzidos homens, que, hoje, aprendem que a força não significa na da além de rechaçar os papéis tradicionais, convergindo em ambigüidade sexual, depois seguindo seus desejos do momento. Ah, e sem se esquecer de ir regularmente ao cinema para assistir a filmes insípidos.


Muito obrigado por nada, dona Disney!

domingo, 30 de março de 2014

O esquerdismo contra a busca da felicidade

O egoísmo é uma coisa boa não porque “eleva o padrão geral de vida” nem porque “aumenta a produtividade dos trabalhadores”. Se não proporcionasse nenhuma dessas duas coisas, o egoísmo ainda seria uma coisa boa por um motivo ainda mais fundamental: ele é a motivação correta da nossa natureza enquanto seres humanos. Em resumo, o egoísmo é plenamente moral.

No entanto, a esmagadora maioria do debate público hoje em dia se dá dentro do paradigma moral estabelecido pela doutrinação esquerdista universal. Até mesmo pessoas de bons princípios que desejam defender a liberdade entram, muitas vezes, em debates confusos e invencíveis porque aceitaram, inconscientemente, as premissas morais da esquerda.

O paradigma esquerdista é difuso e sofisticado, mas pode ser resumido num único pensamento: “os indivíduos existem para o Estado, e não o contrário”. À primeira vista, essa idéia não é nova. A novidade é que essa idéia (que antes recebia o nome correto de tirania), foi reciclada e ganhou estatuto moral. Uma aliança entre pensadores sérios e subversivos espertos deslocou fundamentalmente o ônus da prova em questões morais em favor da presunção da autoridade coletiva sobre cada aspecto da vida. Esse princípio profundamente arraigado reduz todos que não se libertaram radicalmente dele à posição pírrica de argumentar que o afrouxamento do controle do Estado se justifica porque será benéfico de alguma forma para o Estado, defendendo a liberdade como uma maneira mais eficiente de atingir objetivos tirânicos, e não como nosso direito natural.

Se quisermos ter qualquer esperança de, por fim, recuperar a devida proporção das coisas, é essencial entender com exatidão como o ônus da prova moral se deslocou e como esse deslocamento distorceu o debate político.

Uma tradição intelectual desenvolvida no início da Era Moderna enquadrou a questão política básica da nossa época, da seguinte maneira: “Por que os homens livres precisam de governo?" Daí vieram as famosas teorias do “estado da natureza”, o vocabulário dos “direitos naturais” e “contratos sociais”, e o estabelecimento paulatino dos princípios do governo limitado.

Hoje em dia, o esquerdismo – tendo alimentado a humanidade por meio do seu moedor de carne educacional, artístico e burocrático – suplantou a questão política básica da Era Moderna e a inverteu: “Por que o governo precisa de homens livres?” 

A primeira questão surgiu da premissa de que seres humanos individuais e suas necessidades são naturais e primários, de forma que as imposições da autoridade coletiva sobre as relações sociais só se justificam na medida em que elas ajudam a promover nossos objetivos racionais e pré-governamentais. A segunda questão, que está implícita em toda a política contemporânea, decorre da premissa de que o coletivo é a realidade principal, de forma que qualquer liberdade individual que se permita desfrutar se justifica somente na medida em que atende aos objetivos da coletividade, os quais são definidos pelo Estado.

Como a civilização chegou a essa completa inversão metafísica e moral, da presumida prioridade do indivíduo racional concreto para a presumida prioridade de uma abstração denominada “sociedade”?

Foram os filósofos alemães revolucionários do final do século XVIII e do início do século XIX (Kant, Fichte, Hegel), seguidos por seus críticos e herdeiros intelectuais, de Schopenhauer a Marx, que desenvolveram as teorias que destruíram as almas e corroeram a Era Moderna. A base moral de sua influência corruptora era a visão de que o egoísmo (cujo significado é tão somente a busca da felicidade) é intrinsecamente imoral e servil, ao passo que a verdadeira liberdade implica a submissão da vida da pessoa aos interesses da coletividade, ou seja, do Estado. 

Essa virada histórica, do indivíduo como fonte de qualquer coletividade possível para a coletividade como fonte do que o indivíduo pode preservar, floresceu plenamente na Ética de Kant. 

O pensamento do século XVIII foi abalado pelas implicações aparentes da Física newtoniana: se o novo materialismo científico é mesmo abrangente – se a natureza mecanicista é tudo o que existe –, então o homem também deve ser redutível às leis de causa e efeito da ciência. Mas isso, temia-se, significaria o fim de todos os sonhos de singularidade humana, fazendo da liberdade moral uma mera percepção delirante do nosso lugar na cadeia causal da natureza.

A famosa solução de Kant, cristalizada em seu “imperativo categórico”, era que a única maneira de nos vermos como indivíduos livres, e não como parte de uma natureza mecanicista, seria rejeitar todas as motivações de interesse individual em favor da obediência a máximas morais universalizáveis. Em outras palavras, deveríamos obedecer a regras de comportamento “racionais” formadas independentemente de considerações contextuais, ou seja, independentemente de qualquer preocupação com nossa felicidade.

Esclareço: na maioria dos casos, as escolhas morais, entendidas da maneira clássica, são fundamentadas nas condições práticas da vida das pessoas, exigindo a combinação de um caráter bem-formado com um raciocínio prático maduro, ou seja, virtude, para encontrar e se dedicar à aurea mediocritas, definida pela situação específica e pela natureza humana. Portanto, a virtude não é apenas coerente com o nosso desejo de bem-estar ou felicidade (devidamente entendido), mas também sua realização. Viver de maneira virtuosa corresponde a buscar o bem – que é naturalmente desejável – através das escolhas feitas de acordo com nossas circunstâncias e com a natureza de um animal racional, que, por sua vez, é ser feliz. 

Essa fórmula é detalhada no mais influente de todos os tratados morais, a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, mas sua base (de que o homem é o animal que busca a felicidade) pode ser facilmente encontrada no pensamento moral existente antes da obra, de Sócrates a Demócrito, passando por Pitágoras; posteriormente seguiram essa linha os filósofos cristãos da Idade Média, os racionalistas e empiristas do Iluminismo, e, a rigor, toda e qualquer filosofia moral digna do nome.

Kant rechaçava categoricamente essa concepção de virtude fundada no desejo natural de felicidade (o desejo de se sentir “completo” e “perfeitamente vivo”) em favor da exigência de dever e obediência, desconsiderando a avaliação contextual que revela a legítima virtude. Em outras palavras, ele exigia que os homens negassem sua busca pelo que era bom para eles em favor do “bem” abstrato dele (a máxima universalizável), o qual, explicitamente, não era o bem de qualquer ser humano individual per se, mas a forma de silenciar toda e qualquer motivação egoísta. Disso decorre que todas as ações voltadas a atingir o bem-estar individual devem ser consideradas não apenas alheias ao domínio do raciocínio moral legítimo, mas, com efeito, uma motivação neutralizante que deve ser eliminada do pensamento moral. Em outras palavras, segundo o Kantismo, o desejo de felicidade, antes considerado uma motivação moral definidora da natureza, é, na melhor das hipóteses, moralmente irrelevante e, na pior, um obstáculo à moral pura. (A explicação que Kant dá sobre a felicidade é manifestamente confusa, trivializante e contraditória, talvez porque ele quisesse eliminá-la do domínio dos objetivos morais, mas sem conseguir ver como negar totalmente o valor dela).

O discípulo esquerdista mais influente de Kant, o autoritário Fichte, extraiu todas as implicações da Ética kantiana, aplicando à política prática o que Kant havia deixado em grande parte no domínio da teoria. Fichte, possivelmente o primeiro verdadeiro esquerdista no sentido estrito, se opunha à preocupação de Kant com a salvação da dignidade e do livre-arbítrio humanos, considerando-os um retrocesso ilegítimo à antiga moral do egoísmo que, em termos sempre kantianos, deve ser eliminado pela raiz. Declarando o livre-arbítrio como inimigo da verdadeira moral e prescrevendo sua erradicação como a principal função da educação, Fichte defendia a obediência ao dever social por si mesmo e, especificamente, a submissão da consciência individual ao coletivo. O Estado suplantaria a função de um ser transcendental da religião tradicional, substituindo Deus por um novo Paraíso na Terra, também definido por Fichte como “a nação”, “Alemanha” e “o futuro”. 

Paradoxalmente, a vida espiritual da liberdade moderna estava longe de acabada, mesmo quando a implementação prática mais plena dessa vida, a América, ainda estava em sua infância. A primeira nação a fazer da “busca da felicidade” um princípio fundamental explícito – uma expressão sucinta e expressiva do liame entre moral e liberdade política – seria obrigada a crescer num mundo em que essa busca acabara de ser declarada ilegítima e imoral pelos principais intelectuais. A verdadeira vanguarda e esperança da modernidade foi, de repente, tachada de perdidamente retrógrada e superficial, aferrando-se a uma perspectiva moral antiquada que colocava o “simples” bem-estar individual acima do bem do Estado.

Daí foi um pequeno passo para o desenvolvimento do socialismo do século XIX e do comunismo – a Paz Perpétua de Kant estabeleceu o alicerce espiritual da Organização das Nações Unidas, e os Discursos à Nação Alemã de Fichte já exigiam a doutrinação compulsória contra a consciência e a propriedade privadas. Entre as elites intelectuais européia e norte-americana do século XIX, educadas nas novas filosofias alemãs da moda, muitas vezes estudando em universidades alemãs, a idéia de que a moral implicava a recusa de todas as motivações de interesse próprio se alastrou como fogo na floresta. Essa recusa da busca da felicidade pessoal (o coração do pensamento moral correto) seduz tanto os intelectuais rancorosos quanto os operadores da política, sedentos de poder, pois menospreza todas as esperanças ou motivações humanas que possam desafiar os grandiosos projetos, de um tipo ou de outro, artificialmente impostos. O despotismo paternalista e os ataques teóricos a todas as noções de governo estão enraizados na liberdade natural foram o “arroz com feijão” do pensamento Ocidental “avançado” durante todo o século XIX, impulsionaram as atrocidades totalitárias do século XX e são a essência da política institucional de hoje. 

Já o inevitável descompasso entre a evolução dos principais pensadores e a evolução das “massas” ou do “povo” pode ser atribuído à implementação gradativa da verdadeira sociedade esquerdista imaginada pelos precursores acadêmicos e políticos. A educação pública universal, que era o passo mais indispensável, chegou logo, calcada nas escolas prussianas originais inspiradas por Fichte. Pari passu à educação pública vieram a marginalização do papel da família no desenvolvimento das crianças (meta primordial dos primeiros defensores da escola pública), a diminuição da distinção entre homens e mulheres (transformando gradualmente as partes complementares da natureza em “operários” espiritualmente uniformes), e o enfraquecimento da fé religiosa em favor da deificação do governo.

Psicologicamente, a recusa da ética da felicidade em favor da auto-abnegação “desinteressada” diminuiu e desnaturou nossa espécie, gerando a personalidade moral dividida que assola a sociedade moderna – uma cruza de coletivismo sentimental com a busca niilista do “eu”.

Uma teoria defeituosa não pode mudar a natureza. Os seres humanos devem buscar e continuarão buscando sua preservação e seu desenvolvimento. Contudo, em virtude da difamação universal da felicidade individual como uma motivação imatura ou imoral, os homens foram deixados sem uma educação calcada na razão e sem a natureza para orientar sua busca pelo bem. O resultado político dessa dissonância moral é a corrente predominante de hoje: pessoas gananciosas, vorazes e irracionais em busca do prazer que, além disso, são idiotas úteis nas mãos de todo demagogo carismático que agite seu sentimentalismo niilista contra “os ricos”, “os cruéis”, e aqueles que têm “mais do que a parte justa que lhes cabe”. 

O ataque peçonhento da academia alemã ao individualismo e à ética da felicidade pessoal (ou seja, à virtude) infectou rapidamente cada órgão da modernidade, dos pináculos da torre de marfim às mais modestas escolas com uma única sala de aula. Os dogmas morais das filosofias idealistas e pós-idealistas alemãs (de Kant e Fichte a Marx Marx e Engels, chegando até a Escola de Frankfurt) se transformaram nas crenças que definem o mundo moderno ultimamente:
  • O indivíduo é simplesmente uma faceta ilusória da coletividade.
  • O egoísmo, que significa a preocupação com o próprio bem-estar, é imoral.
  • A busca da própria felicidade é mesquinha e superficial.
  • A verdadeira moral está na submissão da mente individual à coletividade.
O futuro pertence àqueles que aceitam a trajetória da História, que está paulatinamente dissolvendo todas as distinções entre nações, entre homens, entre homens e mulheres, entre adultos e crianças e entre razão e sentimento. Estamos sendo arrastados juntos pela corrente da História para sonho caleidoscópico de autocriação coletiva orientada pelo Estado ilimitado.

Contrárias aos brutamontes alemães mais impacientes, como Fichte e Marx, as formas pluralistas de autoritarismo esquerdista provaram, de maneira geral, ser o meio mais duradouro de incorporar ideais coletivistas a uma sociedade. Talvez isso se deva ao infindável gênio do homem democrático de embelezar o Inferno com correntes ricamente ajaezadas e chamas perfumadas. Assim, “o império do povo”, filtrado pelo prisma da ética coletivista, passa a ser a pretensão de cada homem de reivindicar legitimamente a vida, o tempo, e o trabalho de todos os outros homens. 

Esse é o mecanismo pelo qual o “despotismo de veludo” de Tocqueville foi implementado em escala mundial. O mecanismo tem dois lados (ou duas fases). O lado famoso é o que conhecemos por “mentalidade dos direitos”, que, em termos simples, é a pretensão de que cada integrante da coletividade é dono de todos os outros e, portanto, pode exigir coisas deles à força.

Contudo, o outro lado da moeda, igualmente importante, é a suposição de que cada homem é propriedade da coletividade e, portanto, deve render tributo à besta para ser considerado digno de viver. A função desse lado, do ponto de vista dos esquerdistas (que o cultivam com esmero), é reforçar a ética da negação do “eu”, inculcando a regra social da submissão ao Estado, pela qual quem resistir ao seu devido papel de servo da coletividade (ou seja, do Governo) deve ser proscrito como “egoísta” e punido e/ou reeducado.

Isso nos leva ao ponto em que começamos: até entendermos e rechaçarmos toda essa estrutura ética (a filosofia alemã que se tornou o pano de fundo moral da nossa civilização), nunca conseguiremos argumentar adequadamente em favor da liberdade. Se aceitarmos a premissa de que a busca da felicidade é imoral (indistinta da “ganância”), seremos reduzidos ao argumento tímido e autodestrutivo de que uma parcela da liberdade deve ser tolerada como maneira mais eficaz de gerar a prosperidade que sustenta o jugo autoritário. O Partido Comunista Chinês de hoje discordaria disso? Creio que não.

Vamos voltar ao único argumento digno do assunto: os indivíduos são metafisicamente e moralmente mais antigos que as coletividades. A felicidade é nossa motivação moral correta. O homem livre não precisa se justificar perante o Estado; o Estado, sim, deve se justificar perante o homem livre. Essas são as premissas que herdamos de nossa tradição e da nossa natureza, embora, hoje, procuremos por ela no escuro, envoltos pela névoa da filosofia despótica que domina nosso mundo.

Quero concluir com uma lufada de ar moral fresco que vem d’além dessa névoa:
Et ideo ultima et perfecta beatitudo, quae expectatur in futura vita, tota consistit in contemplatione. Beatitudo autem imperfecta, qualis hic haberi potest, primo quidem et principaliter consistit in contemplatione, secundario vero in operatione practici intellectus ordinantis actiones et passiones humanas, 
Portanto, a felicidade definitiva e verdadeira que se espera na vida que virá, consiste inteiramente na contemplação [da essência divina]. Mas a felicidade imperfeita, como a que se pode ter aqui, consiste primeira e principalmente na atividade do intelecto prático para a direção das ações e paixões humanas (...)
[Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, Tratado sobre o Fim Último, Quaestio III, Articulus VI, Iª-IIae q. 3 a. 5 co.]

domingo, 9 de março de 2014

A (i)moralidade das tatuagens e dos piercings

Muitas pessoas de bem sentem repulsa por modinhas modernas, inclusive tatuagens, o uso de uma infinidade de brincos e outras perfurações pelo corpo, mas lhes falta o equipamento intelectual para fazer um juízo claro sobre a moralidade dessas práticas ou para refutar a acusação de elevar suas preferências pessoais ao estatuto de um código moral. Neste artigo, exponho alguns critérios relevantes para fazer um juízo moral sobre essas coisas.

No Antigo Testamento, foi especificamente ordenado ao Povo Eleito:

.וְשֶׂרֶט לָנֶפֶשׁ, לֹא תִתְּנוּ בִּבְשַׂרְכֶם, וּכְתֹבֶת קַעֲקַע, לֹא תִתְּנוּ בָּכֶם: אֲנִי, יְהוָה


Não farás cortes em tua carne para os mortos, nem gravarás marcas em ti: eu sou o SENHOR. (Levítico 19:28).

Inspirado por Deus, São Paulo nos adverte:

ἢ οὐκ οἴδατε ὅτι τὸ σῶμα ὑμῶν ναὸς τοῦ ἐν ὑμῖν Ἁγίου Πνεύματός ἐστιν, οὗ [ἔχετε] ἀπὸ Θεοῦ; καὶ οὐκ ἐστὲ ἑαυτῶν;

Ou não sabes que teu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de ti, que [recebeste] de Deus?(1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, 6:19).

Sendo um templo do Espírito Santo, nosso corpo merece o cuidado, a proteção e o decoro devidos. Em algumas culturas, uma marca ou um desenho especial no corpo – na testa, por exemplo – significa uma determinada realização ou o estado civil, ou o que for, sendo socialmente aceitável. Os cristãos etíopes, para mencionar apenas um grupo, usa cruzes tatuadas em suas testas. Em Samoa, era amplamente habitual tatuar o filho ou a filha primogênito(a) da família governante local. Nas sociedades Ocidentais, brincos e maquilagem são aceitos como parte da moda feminina e de sua apresentabilidade pública. No entanto, em nossa sociedade, alguns tipos de perfurações e decorações corporais são radicais e não se justificam, e algumas delas são motivadas por sentimentos anticristãos.

Seria impossível fazer um juízo nítido e definitivo sobre todos os adornos corporais, mas podemos indicar alguns aspectos negativos que são relevantes para um cristão. Neste artigo, deixo claro que, salvo indicação em contrário, me refiro apenas às sociedades Ocidentais. Falarei primeiro sobre os aspectos mais sérios e, depois, dos mais leves.

1. Imagens diabólicas. Tatuagens de demônios são bastante comuns, e nenhum cristão deve jamais expor a imagem de um diabo ou símbolo satânico.

2. O triunfo do feio. Esta é uma marca de Satanás, que odeia a beleza da criação de Deus e tenta destruí-la e arruinar sua apreciação pelos outros. Mais do que apenas feios, algumas perfurações corporais são a expressão prazer de ser feio.

Eu reconheço ou mau gosto em tatuagens, anéis e pinos examinando sua natureza, seu tamanho, sua extensão e o lugar do corpo em que se encontra. Ironicamente, até mesmo tatuagens floridas e coloridas desbotam com o tempo e acabam com uma aparência escura e triste. Se pensarmos em como, nos campos de concentração, os prisioneiros eram tratados como animais e tinham seus braços marcados com um número, causa muita espécie pensar que, hoje em dia, as pessoas adotem marcas semelhantes como se fossem modernas ou elegantes. O comportamento de pessoas que não tem noção alguma de dignidade da pessoa humana é, sem dúvida, um sinal de volta à barbárie.

3. Automutilação e desfiguração. Esse é um pecado contra o corpo e o Quinto Mandamento. Alguns piercings beiram a automutilação. Na melhor das hipóteses, a multiplicidade de piercings não passa de maus tratos autoinfligidos. Uma forma de ódio ou rejeição por si mesmo leva certas pessoas a se perfurar ou decorar de maneira repugnante e prejudicial. O corpo humano não foi feito por Deus para ser uma almofada para espetar alfinetes nem para ser um mural.

4. Prejuízo à saúde. Médicos já se expressaram publicamente sobre essa questão de saúde. Em 2001, pesquisadores da Universidade do Texas e da Universidade Nacional Australiana publicaram artigos sobre o mal causado à saúde por tatuagens e percings. Alguns brincos (no umbigo, na língua ou no pavilhão auricular) são prejudiciais à saúde e causam infecções ou prejuízos duradouros, tais como deformações da pele. Eles também podem envenenar o sangue por algum tempo (septicemia). Algumas perfurações (por exemplo, no nariz, nas sobrancelhas, nos lábios, na língua) não se fecham mesmo quando o objeto é retirado. Portanto, essas perfurações são imorais, pois não se deve pôr a saúde em risco sem um motivo cabível. Se forem feitos sem higiene, as tatuagens e os piercings podem causar infecções. Um instrumento usado, se não for devidamente esterilizado, seguramente transmitirá hepatite ou HIV.

Algumas pessoas esperam evitar os riscos à saúde usando tatuagens de hena, que são pintadas, em vez de serem feitas com agulhas. A pintura com hena é um antigo costume hindu de casamento, que consiste em pintar motivos florais nos pés e nas mãos. Um estudo realizado por pesquisadores alemães em 2001, concluiu que os turistas que voltavam para casa com tatuagens de hena feitas em Bali, Bangcoc e outros lugares procuravam atendimento médico em virtude de graves infecções cutâneas e, às vezes, alergias crônicas. Em alguns casos, ainda, o pigmento usado fazia com que a tatuagem desbotasse, mas, depois de algumas semanas de irritação da pele, o desenho voltacva a aparecer na forma de uma tatuagem avermelhada, muitas vezes causando fortes dores no paciente. As alergias se manifestavam de 12 horas a uma semana após a aplicação da hena, causando comichão, rubor, bolhas e descamação intensos.

5. Desejo de chocar e causar repulsa. Pode ser adequado chocar as pessoas, por exemplo, quando se relata os dramas dos pobres e famintos, ou quando se protesta contra crimes ou trabalho escravo. Isso pode ser saudável se for feito da maneira devida e com o devido cuidado, para tirar as pessoas de um estado de abulia e fazê-las perceber que algo precisa ser feito. Mas chocar as pessoas pelo simples prazer de chocar, sem intenção de promover a verdade e o bem, não é uma virtude. Ao contrário, indica uma noção pervertida de valores.

Quando avalio as tatuagens sob o prisma da repulsa, vemos a natureza das imagens, o tamanho e o número de tatuagens, além de seu posicionamento no corpo. Quando avalio os piercings, levo em conta sua extensão e sua localização no corpo.

6. Indecência e irreverência. Sempre é imoral fazer ou exibir tatuagens de imagens ou frases indecentes, ou figuras sarcásticas de Nosso Senhor ou de Sua Mãe, ou de coisas sagradas.

7. Sinais de desorientação sexual. Em tempos d'antanho, os piratas eram os únicos homens que usavam brincos (fosse qual fosse o motivo!), e marinheiros e aberrações de circo eram praticamente as únicas pessoas que se tatuavam. O que antes era limitadíssimo se espalhou para camadas mais amplas da população. Na década de 1970, um brinco na orelha esquerda, direita, ou em ambas as orelhas de um homem representava um código da sua orientação sexual e, portanto, uma forma de atrair parceiros. Dessa forma, era algo flagrantemente imoral e, de maneira geral, um outdoor da imoralidade da pessoa. Meninos e homens usando brincos passaram a ser tão comuns que esse ato perdeu seu significado, mas esse adorno nunca é exigido em situações sociais, como paletó e gravata em determinadas ocasiões formais. Mesmo admitindo a falta de um simbolismo claro nos dias de hoje, eu espero que qualquer seminário ordene a qualquer candidato que tire brincos ou piercings antes de entrar e lhe questione quando e por que começou a usá-lo. Um seminarista ou padre que exibe um brinco não é socialmente aceitável na Igreja Católica. Um número considerável de paroquianos se perguntaria a respeito dos motivos ou das motivações mais profundos. Ninguém em tal posição pública começa a usar um brinco sem tomar uma decisão deliberada. Como um padre jesuíta bastante sábio me disse certa vez, “Ninguém muda o exterior sem antes ter mudado o interior”. Isso é considerado o que as pessoas chamam de “dar o recado”. O mesmo código de conduta esperada vale para homens em outras profissões, como policiais ou professores.

Os patrões e chefes devem criar regras para proibir o uso desses adornos por funcionários e alunos homens. Essas regras devem valer especialmente para os mais jovens, para protegê-los de si mesmo e da pressão dos colegas. O fato é que, mesmo hoje em dia, os brincos predominam entre as mulheres, e apenas uma minoria de homens os usa.

8. Inadequação. Às vezes as pessoas fazem uma tatuagem enorme de um crucifixo ou de outra imagem sagrada. O corpo humano é o lugar mais inadequado para essas imagens, mesmo que seja muito bela. Quando essas pessoas vão, por exemplo, nadar numa piscina, elas exibem essa imagem de maneira inadequada. Não vemos um sacerdote ir a um shopping center vestido para a Santa Missa, não porque haja algo errado com a vestimenta em si, mas porque existe hora e lugar certos para ostentar símbolos religiosos especiais.

9. Vaidade. Há pessoas que se comprazem em tatuar braço e antebraço para ostentar e impressionar. É um meio que têm de chamar a atenção para si. Ninguém que se encontrar com essas pessoas conseguirá ignorar as tatuagens, que chegam ao ponto de criar distração constante, desviando a atenção do que a pessoa tem a dizer para sua aparência exterior. Podemos dizer o mesmo de piercings na língua e na sobrancelha, argolas no nariz, ou brincos em toda a orelha. Nada disso faz parte da nossa cultura; no máximo, fazem parte de uma determinada subcultura, de uma minoria, sem nenhum significado social ou religioso positivo. Não estou dizendo que é errado se vestir bem, mas a questão, neste caso, é a moderação e a discrição. A Sagrada Escritura reconhece implicitamente ser adequado que a noiva se enfeite para seu marido, comparando a Jerusalém celestial a essa mulher:

καὶ τὴν πόλιν τὴν ἁγίαν Ἰερουσαλὴμ καινὴν εἶδον καταβαίνουσαν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ ἀπὸ τοῦ θεοῦ,ἡτοιμασμένην ὡς νύμφην κεκοσμημένην τῷ ἀνδρὶ αὐτῆς.

(E a cidade sagrada, a nova Jerusalém, eu vi descer do Céu, de Deus, tendo sido preparada como uma noiva [que foi] adornada para seu marido.

(Revelação, 21:2).

É adequado que uma moça se vista bem e se maquile quando a ocasião pedir, mas todos reconhecem quando os adornos são exagerados.

10. Imaturidade e imprudência. Um ato aceitável ou indiferente em si pode se tornar errado se a intenção ou o motivo for errado. Alguns jovens seguem modas escandalosas pelo desejo imaturo de se rebelar contra a sociedade ou seus pais. Essa desobediência contra os pais é pecaminosa. Alguns fazem isso pelo desejo imaturo de imitar os amigos, e outros, pelo também imaturo desejo de se destacar de todos ao seu redor. Alguns fazem isso por tédio, por ser algo diferente, por ser emocionante, por ser algo que seus amigos poderão admirar e comentar. Seguir modas de maneira irrefletida sempre será sinal de imaturidade. Para os jovens que moram com seus pais, sob a autoridade deles, basta que os pais exponham seu desagrado com essas modas para que os filhos saibam que não devem prosseguir. Alguns jovens vão ainda mais longe, competindo entre si para ver quem consegue aplicar mais piercings. Os pais devem proibir totalmente esse comportamento.

É praticamente impossível que os jovens justifiquem o enorme gasto (para não falar da dor) de fazer uma tatuagem. Além disso, é injustificável e simplesmente estúpido marcar o corpo para o resto da vida com imagens que não valem grande coisa ou, inda pior, com o nome do(a) namorado(a) de plantão. Há pessoas que gastam uma pequena fortuna (até R$ 10.000) para tatuar um braço de cima abaixo. São sessões longas (chegando a até quatro horas).

As tatuagens são piores do que os outros adornos porque são marcas permanentes. Muitos homens e mulheres se tatuam na juventude, mas, anos depois (às vezes não muito) se arrependem quando passam a considerar as tatuagens uma desfiguração constrangedora. Quando amadurecem, pagam os olhos da cara pela remoção das tatuagens - uma tarefa difícil e de altíssimo custo, que invariavelmente deixa cicatrizes. A retirada de tatuagens de grande porte exige cirurgias com anestesia geral (e todos os riscos de uma cirurgia), além do custo elevadíssimo da internação e do tratamento posterior. Retirar tatuagens grandes pode deixar grandes partes da pele permanentemente desfiguradas ou manchadas, como se tivessem sofrido queimaduras Muitos adultos não conseguem determinados empregos porque as empresas se recusam a empregá-los com as mãos e os braços cobertos por tatuagens impossíveis de ocultar anos após a "aventura" na juventude.

Critérios Universais
Em qualquer cultura, as coisas podem surgir, ganhar aceitação e se tornar parte da cultura, mas essa aceitação não as transforma automaticamente em algo correto. Vou dar alguns exemplos de culturas estrangeiras (curiosamente, nenhuma Ocidental), que considero igualmente errados. Numa tribo africana, as mulheres ostentam brincos gigantes e pesados que mudam a forma dos lóbulos das suas orelhas. Noutro lugar, as mulheres põem argolas em seus pescoços para alongá-los artificialmente, ou põem chapas na boca para que seus lábios fiquem alguns centímetros mais longos. Na China, havia o costume de amarrar os pés das meninas com muita força para impedir que eles crescessem, pois pés pequenos e delicados eram admirados. Essas e outras alterações drásticas no crescimento natural do corpo humano devem ser consideradas imorais como formas de mutilação decorrentes da vaidade.

Nem sempre é possível traçar uma linha exata e dizer onde os limites da moderação foram ultrapassados, mas isso não quer dizer que não exista um limite. Ninguém pode definir a temperatura exata em que um dia passa de fresco para frio, mas todo mundo sabe que que, quando a temperatura se aproxima de zero, não há dúvida de que está frio. Nunca devemos cair no truque de quem tenta argumentar, com base em casos limítrofes ou difíceis, que não há diretrizes nem princípios, e que não existe média nem moderação só por causa da dificuldade de defini-las.

O corpo humano deve ser tratado com cuidado, e não maltratado ou desfigurado. Sua dignidade e sua beleza devem ser preservadas e cultivadas para que ele expresse a beleza mais profunda da alma.