domingo, 29 de setembro de 2013

O ano do estudo com ratos de laboratório

Esta semana marcou um aniversário um tanto ambíguo no mundo dos organismos geneticamente modificados (OGMs). Foi no mês de setembro do ano passado que o professor Gilles-Eric Séralini e um grupo de pesquisadores franceses publicaram o que viria a ser conhecido como o “estudo dos ratos”, de triste fama.

Se vocês acompanham o noticiário sobre esse assunto, certamente leram as afirmações que ganharam as manchetes nas semanas que se seguiram: “Transgênicos aumentam em até três vezes ocorrência de câncer em ratos”, “Ratos alimentados com milho da Monsanto desenvolvem tumores” ou “Pesquisa diz que transgênicos causam tumores”, entre outras. As manchetes, habilmente engendradas para causar temor, foram completamente ofuscadas pelo que as acompanhava: fotografias de ratos de laboratório ostentando imponentes tumores.

Combination image of two pictures featuring rats with tumors after they were fed a diet of genetically modified (GM) maize produced by US chemical giant Monsanto (AFP Photo / Criigen)

Quase imediatamente, o estudo foi condenado pela comunidade científica, que salientou problemas graves de metodologia e interpretação. Alguns, como Mark Tester, professor de fisiologia vegetal do Centro Australiano de Genômica Vegetal Funcional, questionou as afirmações fora do comum feitas no estudo. Afinal de contas, as plantas geneticamente modificadas são produzidas há 15 anos e trilhões de refeições que contêm ingredientes transgênicos já foram consumidas por seres humanos e animais. Ele fez o seguinte questionamento: “Se os efeitos são tão grandes quanto se supõe, e se o trabalho é realmente relevante para os seres humanos, por que os norte-americanos não estão morrendo como moscas?”.

Outros questionaram os métodos estatísticos empregados no estudo. Um grupo de cientistas enviou uma carta ao editor do periódico no qual o estudo foi publicado, pedindo a reconsideração da publicação. Eles criticaram as conclusões, afirmando que “[esse] estudo não apresenta provas sólidas que apoiem suas afirmações. Na verdade, as falhas do estudo são tão óbvias que o trabalho nunca deveria ter sido aprovado após a avaliação”. Até mesmo a Administração Européia de Segurança Alimentar entrou na conversa, dizendo serem “incapazes de considerar cientificamente legítimas as conclusões dos autores”.

Eu li atentamente o trabalho de Séralini et al. e não demorou para sentir cheiro de picaretagem no ar. Acompanhem meu raciocínio.

Os ratos usados no estudo são um tipo específico de rato de laboratório que costuma ser usado em pesquisas sobre o câncer. Eles são conhecidos como ratos “Sprague-Dawley”. Esses ratos podem ser úteis no estudo do câncer por causa de sua propensão ao desenvolvimento de tumores cancerosos. Alguns dos ratos alimentados com milho transgênico desenvolveram tumores (como se espera do tipo Sprague-Dawley), mas alguns ratos do grupo de controle (também ratos Sprague-Dawley) também desenvolveram. Isso não foi surpresa nenhuma. O que me causou espécie foi que os autores não acharam que valia pena indicar que todos os ratos usados se encaixavam nas porcentagens de todos os ratos Sprague-Dawley que desenvolvem tumores, independentemente da sua alimentação.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o fato de terem sido usados muito poucos ratos no grupo de controle: apenas 10 machos e 10 fêmeas. Foi dito que não houve tantos efeitos nocivos à saúde nesses grupos de controle minúsculos quanto nos 180 ratos do estudo. Mas isso não é exatamente surpreendente. Em Estatística, isso se chama “erro de amostragem”. Por exemplo, se eu pusesse uma venda sobre meus olhos e tirasse 10 Confetis™ de um saco, provavelmente não ficaria surpreso se não tirasse nenhum verde. Com uma amostra de apenas alguns docinhos, é impossível saber se aqueles que eu peguei representam a totalidade do saco. Como se diz em Estatística, “o tamanho (da amostra) conta”.

Tom Sanders, chefe da divisão de Ciências da Nutrição do King’s College de Londres, foi um dos tantos que salientaram problemas com o método utilizado. Ele afirmou que “aparentemente, os autores saíram para fazer uma pescaria estatística”. Parece que apenas um estatístico ficou satisfeito com o estudo, “pois ele é um belíssimo caso clássico para apresentar numa aula de Estatística sobre concepção, análise e apresentação incorretas”. Ele acrescentou: “Vou começar a usá-lo imediatamente”.

O estudo dos ratos e suas conclusões de que o milho transgênico causa câncer em ratos ou qualquer outro animal foi condenado praticamente por todos os outros pesquisadores como uma excursão absurda pelo reino da Estatística enganosa. O lugar desse estudo é o fundo da lixeira da pseudociência.

Mas vocês devem estar se perguntando por que eu estou desenterrando esse assunto um ano depois. Explico: é porque acho que o estudo foi significativo por outros motivos. Mas falo sobre isso daqui a alguns dias.

Por falar nisso, vocês leram o meu artigo sobre vacas e milhos? Quem perdeu, pode ler aqui.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Combater a corrupção não é a solução

Na noite/madrugada de sexta-feira passada, tive um pequeno qüiproqüó, um pequeno quebra-quebra com algumas arrobinhas que freqüentavam timeline do meu Twitter porque fui obrigado a ser extremamente duro e direto com uma criatura que, embora se oponha (e, acredito, com sinceridade) à ditadura vermelha que já se abateu sobre o Brasil, não tem preparo intelectual suficiente para lidar com certas sutilezas de raciocínio.

Essa criatura, apelando ao sentimentalismo mais barato e abjeto, publicou na sua timeline um vídeo sobre um "pai que perdeu a filha no SUS" e, pasmem, responsabilizou diretamente o Min. Celso de Mello por essa morte! Esse rompante contou com a "guarnição" de chavões como "mensalão mata", "esse sangue está em suas mãos", e outros apelos desprovidos de qualquer conteúdo racional.

O vídeo é este:


Bem, quem quiser ler uma análise absolutamente fria e irrefutável de que, com ou sem corrupção, mensalão, Celso de Mello ou Jacozinho caindo pela esquerda, o SUS é um serviço de saúde fadado à escassez e à impossibilidade de atender a todos com qualidade, leia o artigo "Como Mises explicaria a realidade do SUS?".

Mas o que me traz aqui hoje é uma análise um pouco mais abrangente sobre esse ente abstrato chamado corrupção, ao qual todas as mazelas, sem exceção, são atribuídas.

Estou lendo um livrinho (pouco mais de 150 páginas) maravilhoso de Ludwig von Mises, Kritik des Interventionismus (Crítica ao Intervencionismo), publicado originalmente em 1929. Ao discorrer sobre os efeitos nocivos da intervenção estatal na Economia através da restrição direta sobre a produção e dos controles de preços, Mises aborda a questão da corrupção. Lendo a seção V do capítulo 1 (Destruktion als Ergebnis der Interventionpolitik, ou "Destruição resultante da política intervencionista"), fico assombrado ao ver que Mises, enxergando muito longe no futuro, descreve todo o fenômeno da corrupção. Não pude deixar de ter a impressão de que Mises falava sobre o endêmico problema da corrupção no Brasil atual! Ele nos diz que a corrupção por parte dos políticos não é a raiz das moléstias econômicas; que a falta de rigor por parte dos vários órgãos em fazer cumprir o sem-número de medidas intervencionistas não é a causa das más condições da economia. Na verdade, essa falta de rigor é o que mantém a economia funcionando mesmo sob o peso da infinidade de intervenções do Governo! Mises afirma (e concordo inteiramente com ele) que a corrupção faz bem para uma economia de mercado estorvada. Obviamente ele não está dizendo que a corrupção em si é boa e que não devemos acabar com ela na primeira oportunidade que tivermos. Eu abomino figadalmente a corrupção. Também não quero viver numa sociedade corrompida. No entanto, como bem expôs Mises, a corrupção não é a raiz dos nossos problemas econômico e sociais. Ela é apenas um sintoma da intervenção do Governo na economia. O intervencionismo econômico é a raiz da debilidade da nossa economia e, também, da corrupção. Faço, aqui, uma tradução (direta do alemão) de alguns parágrafos do capítulo 1, seção V, do livro para que vocês possam entender claramente a questão.

Antes, um caveat: muito embora o livro Kritik des Interventionismus já tenha sido traduzido para o português e publicado em parceria pelo Instituto Mises Brasil e pelo Instituto Liberal (http://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=55), não consegui determinar se essa tradução foi realizada diretamente do alemão ou com base em alguma outra tradução (inglês, francês, espanhol...). Como não confio muito nas traduções realizadas ultimamente no Brasil, vi por bem arregaçar as mangas e publicar minha própria tradução do capítulo em questão, "sem aditivos nem conservantes", direta do alemão e, na medida do possível, sem "sotaque".

(...)

"O crítico dos acontecimentos, sem formação em Economia, vê apenas que “partes interessadas” sempre encontram saídas para escapar das prescrições da lei. A culpa de que o sistema funciona mal é atribuída exclusivamente ao fato de que a lei não tem alcance suficiente e que sua aplicação é prejudicada pela corrupção. O fracasso da política intervencionista reforça a convicção [do crítico leigo] de que a propriedade privada deve ser controlada por meio de leis severas. A corrupção dos órgãos encarregados da fiscalização do Estado não abala sua confiança cega na infalibilidade e na impecabilidade do Estado; ela simplesmente o enche de repulsa moral aos empresários e capitalistas.

No entanto, a transgressão da lei não é (como ingenuamente ensinam os estatistas) um transtorno dificilmente erradicável oriundo da fraqueza humana, que deve ser eliminado para criar o Paraíso na Terra. Se as leis intervencionistas fossem realmente cumpridas, não demoraria nada para que elas conduzissem ao absurdo. Todas as engrenagens deixariam de funcionar porque o longo braço do Estado se aproximou muito delas.

Aos olhos dos nossos contemporâneos, as coisas funcionam assim: "os agricultores e comerciantes de leite conspiram para aumentar o preço do leite. Então, para corrigir a situação, entra em cena o Estado benfeitor para lançar o interesse público contra os interesses especiais, e o ponto de vista da economia popular contra o setor privado. O Estado pulveriza o "cartel do leite", estabelece tetos de preço para o leite e processa judicialmente quem descumprir as regulamentações aprovadas. O fato de que o leite não ficará tão barato quanto as pessoas, na qualidade de consumidores, gostariam, passa a se dever à falta de clareza suficiente das leis, o que impede que elas sejam impostas com o rigor necessário. Não é tão fácil se opor à motivação de lucro dos grupos de pressão que prejudicam o público. As leis devem, portanto, tornar-se mais rigorosas e ser impostas de maneira implacável e impiedosa".

Na verdade, as coisas são bem diferentes. Se os preços fossem realmente tabelados, a produção e o fornecimento de leite nas cidades falhariam. A quantidade de leite disponível não seria maior, e sim menor ou até mesmo inexistente. Ainda há leite para os consumidores pelo simples fato de que as regulamentações são contornadas. Se quiséssemos a contraposição totalmente inadequada e perversa dos interesses econômicos públicos e privados, deveríamos dizer o seguinte: o comerciante de leite que contraria a lei age pelo bem de todos; a autoridade pública que tabela os preços está colocando esse bem em risco.

Obviamente, o empresário que transgride as leis e regulamentações das autoridades para produzir independentemente dos obstáculos erigidos pelo Estado não se conduz levando em conta o interesse público, que os defensores do intervencionismo constantemente apregoam, mas sim a intenção de lucrar, ou ao menos o desejo de evitar os prejuízos que lhe seriam causados pelo cumprimento das leis e normas. A opinião pública, que se indigna com a mesquinhez dessa atitude e com um agir tão repreensível, não é capaz de compreender que, sem essa inobservância das leis e proibições, a impraticabilidade da política intervencionista conduziria sem demora à catástrofe. A opinião pública espera a salvação através do cumprimento rigoroso das decisões do Estado adotadas "para a proteção dos fracos" e censura o Estado apenas por não ser suficientemente rigoroso para aplicar todas as medidas necessárias e por não confiar a imposição das normas a pessoas mais capazes e incorruptíveis. Os problemas básicos do intervencionismo não são absolutamente discutidos. Quem sequer timidamente ousar pôr em dúvida a restrição ao poder dos capitalistas e empreendedores será proscrito como um mercenário a serviço de interesses especiais ou, na melhor das hipóteses, será tratado com tácito desprezo. Mesmo em discussões sobre os métodos do intervencionismo, quem não quiser arriscar sua reputação e, sobretudo, sua carreira, deve ser muito cauteloso. É muito fácil atrair a suspeita de servir ao "capital", e quem usar argumentos econômicos na discussão jamais escapará dessa suspeita.

Se a opinião pública suspeita de corrupção em todas as partes no intervencionismo estatal, ela certamente não está errada. A corrupção dos políticos, dos parlamentares e dos funcionários públicos é, na verdade, o fundamento que permite sustentar o sistema; sem ela, o sistema desmoronaria e seria substituído ou pelo socialismo ou pelo capitalismo. Para o liberalismo, as melhores leis seriam as que proporcionassem a margem mais estreita possível aos órgãos encarregados de sua aplicação, a fim de evitar arbitrariedades e abusos. O Estado moderno busca fortalecer o poder discricionário de seus órgãos. Tudo deve ser deixado ao livre arbítrio das autoridades.

Não é possível demonstrar aqui as conseqüências da corrupção sobre a moral pública. Naturalmente, nem corruptor nem o que suborna nem o que recebe o suborno se dão conta de que seu comportamento tende a preservar o sistema que a opinião pública e eles mesmos acreditam ser o certo. Eles infringem a lei e, por isso, estão conscientes de estar prejudicando o bem comum. E como eles estão pouco a pouco adotando o hábito de transgredir as leis penais e os preceitos morais, eles acabam por perder a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Se praticamente nenhuma mercadoria puder ser produzida ou implementada sem que alguém transgrida alguma regulamentação, pecar contra a lei e a moral será considerado, portanto, um infeliz efeito colateral da "vida", e os que desejam o contrário serão ridicularizados como "teóricos". O comerciante que começar a transgredir as leis cambiais, as proibições à importação e exportação, os tabelamentos de preços, etc., logo acabará por trair a confiança das partes com quem contratar. O declínio da ética comercial, conhecido como "efeito inflacionário", é o efeito colateral necessário das regulamentações adotadas em tempos de inflação, para controlar as transações comerciais.

Às vezes, ouve-se a afirmação de que o sistema do intervencionismo se tornou bastante tolerável em virtude da permissividade da fiscalização. Mesmo as interferências com as políticas de preços deixariam de ser sentidas pela economia como um incômodo excessivo se os se os empresários pudessem ser “orientados” por meio de dinheiro e persuasão. Talvez não se possa negar que as coisas seriam melhores sem essas interferências, mas é necessário amoldar-se à opinião pública. O intervencionismo é considerado um tributo que deve ser pago à democracia para manter a viabilidade do sistema capitalista.

Essa linha de raciocínio deve ser entendida do ponto de vista dos empresários e capitalistas com mentalidade marxista-socialista ou estatal-socialista. Aparentemente, para eles, a propriedade provada dos meios de produção é uma instituição que favorece os interesses de proprietários de terras, capitalistas e empresários em detrimento dos interesses públicos. A manutenção da propriedade provada atende unicamente aos interesses das classes possuidoras.

Portanto, se essas classes forem capazes de manter apenas as instituições que lhes forem úteis, em detrimento do público geral e de todas as outras classes, através de algumas concessões que não lhes imponham grandes sacrifícios, seria tolo de sua parte recusar-se teimosamente a fazer concessões e, portanto, comprometer a continuidade da ordem social que lhes proporciona apenas vantagens.

Quem não comunga desse ponto de vista dos representantes dos interesses "burgueses" não aceitará esses argumentos. Não há motivo aparente para reduzir a produtividade do trabalho da economia por meio de ações incorretas. Se alguém detém a propriedade dos meios de produção para uma instituição em favor de uma parte e em detrimento de outra parte da sociedade, então ela deve ser abolida. Mas se reconhecermos que ela é útil para todos, e que a sociedade humana, com sua divisão do trabalho, não pode ser organizada de outra maneira, será necessário manter a propriedade dos meios de produção para que ela possa cumprir sua função da melhor maneira possível. É desnecessário discutir aqui a confusão sobre todos os preceitos morais que deverá surgir se a lei e os códigos morais rejeitarem, ou pelo menos vilipendiarem, algo que deva ser preservado como base da vida social. Mas de que adiantaria proibir algo esperando que, na maioria dos casos, essa proibição seja contornada?

Como podemos ver claramente, a corrupção não é o verdadeiro problema enfrentado pela economia. O sistema econômico de intervenção estatal É a verdadeira raiz da corrupção e das más condições da economia. Nenhuma lei de combate à corrupção jamais acabará com a corrupção nem saneará a economia brasileira. Se quisermos acabar com a corrupção e melhorar as condições econômicas da população, será necessário acabar, antes, com a intervenção do governo. Precisamos rejeitar todas as regulamentações e os controles que se impõem sobre o mercado. Precisamos debater o problema fundamental do papel do Estado em nossa sociedade. Pôr sobre a mesa a questão da corrupção fará com que o debate comece sobre premissas equivocadas. Fazer as perguntas erradas nunca levará às respostas certas. O governo fica muito satisfeito em viciar as pessoas no debate sobre a questão inútil do combate à corrupção, pois, assim, elas não questionarão a própria existência do sistema do Estado nem sua intervenção sobre a economia.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sobre vacas e milhos: o que significa ser transgênico?

Velaquí, como é xenerosa a cara das vacas!
Neste fim de semana, voltando a São Paulo após sagrar-me vice-campeão num torneio de tênis em Limeira, cruzava o verdejante interior paulistano pela rodovia Anhangüera. É difícil não contemplar a agricultura. Às portas da primavera, já com temperaturas bem elevadas, já está quase tudo verdinho nas plantações. E, é claro, vaquinhas e boizinhos pastando alegremente.

Assistindo a esse cenário pela janela do ônibus, fiquei pensando o que significa para uma planta ou um animal ser chamado de organismo geneticamente modificado (OGM) - popularmente, transgênico. Boa parte do milho nas lavouras pela quais eu passei eram "geneticamente modificadas". Em geral, a modificação genética diz respeito à tecnologia de inserir, retirar, ou "ligar ou desligar" determinados genes do pé de milho. Os cientistas botânicos usam seu conhecimento do DNA para inserir no milho genes que o aperfeiçoam consideravelmente, por exemplo, tornando-o resistente a insetos (falarei disso em outro artigo).

Mas qual é a diferença entre essa "modificação genética" e a que a humanidade já vinha fazendo com os alimentos há milhares de anos?

Pense, leitora, no milho e no gado que eu vi nos campos e nas pastagens. O milho começou sua "carreira" como uma gramínea silvestre que produzia poucos e minúsculos frutos semelhantes a uma espiga. Mais de 5 mil anos atrás, os povos da América Central começaram a selecionar e plantar as sementes das plantas que preferiam, descartando o restante delas. A partir desse momento, depois que o milho começou a viajar pelos continentes, esse cultivo seletivo mudou intencionalmente o formato e o tamanho do milho, lentamente transformando-o nas variedades doce, bicolor e azul que conhecemos hoje.

Pense, também, na bela e generosa vaca. Dóceis produtoras de quantidades abundantes de nutritivos leite e carne, as vacas modernas são o resultado de mais de 10 mil anos de modificações influenciadas pelo homem. As vacas evoluíram do que eram: uma besta selvagem e com cascos chamada auroque. A domesticação do auroque começou há tento tempo que os arqueólogos se referem a esse período por sua denominação geológica, o Holoceno. Foi nessa época em que nossos antepassados começaram a selecionar e criar os animais que fossem mais úteis para eles, alterando, com isso, a conformação genética da prole.

Na verdade, todos os vegetais e animais que vi nas fazendas pelas quais passei passaram por transformações genéticas radicais desde o tempo de seus ancestrais selvagens.

Nossos antepassados, sem saber absolutamente nada sobre DNA ou genes, influenciaram mudanças na conformação genética do seu alimento, tornando-o mais saboroso, nutritivo e fácil de criar e plantar. Hoje, os cientistas sabem como o DNA dos vegetais e dos animais determina suas características. A ferramenta da engenharia genética (ou da modificação genética) é uma maneira de aproveitar esse conhecimento na busca incessante por alimentos melhores.

Os geneticistas descobriram inclusive maneiras de aperfeiçoar os alimentos através da transferência de genes de uma espécie para outra, como os mamões resistentes a doenças, que emprestam um gene do vírus que os ataca, ou os tomates que incorporam genes de uma flor chamada boca-de-leão. Esses métodos trazem reflexos dos nossos antepassados. Eles evocam os povos do Crescente Fértil que cruzavam o capim Aegilops cylindrica com trigo selvagem para produzir um grão mais resistente, ou os faraós do Egito, que cruzavam burros com cavalos para criar as fortes e robustas mulas. A diferença é a precisão, o conhecimento e a velocidade com que, hoje em dia, é possível fazer esses aprimoramentos.

Portanto, para responder à pergunta que fiz no título deste artigo, a moderna modificação genética é simplesmente um método diferente de conseguir exatamente o mesmo tipo de modificação genética que os agricultores conseguem há milênios. Nesse sentido, praticamente todos os alimentos, todas as lavouras e todos os animais domesticados que existem hoje podem ser considerados "transgênicos".

A engenharia genética dos alimentos não é novidade. A novidade está tão somente nas técnicas para realizá-la.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Sujar os dedinhos? Má nunca!"

Caríssimos, eu já disse isto alhures (talvez em um dos meus finados blogues), mas vale a pena repetir.

É claro que todos nós queremos que o Brasil se torne uma nação realmente próspera e grande (com  bases sólidas), mas isso jamais vai acontecer se continuarmos aplaudindo essas infelizes iniciativas das ONGs da vida de dirigir as crianças mais carentes para atividades "culturalmente divertidas" ou "divertidamente culturais", como tocar tambor, fazer escultura com bosta de tuiuiú ou dançar de pé pro ar (salve, Billy Blanco!).

Precisamos, cara leitora, de que as escolas concentrem seus esforços em ensinar com solidez Língua Portuguesa (e depois, se sobrar tempo, um idioma estrangeiro), Matemática, Física, Química e Biologia. A isso se chama "ensino com os pés no chão". O resto é perfumaria.

Faço esse já longo intróito porque chega ao meu conhecimento a seguinte notícia do G1 de Santa Catarina (com link): "Olimpíada do Conhecimento reúne 190 participantes em Lages". Já volto.
A Olímpiada do Conhecimento do Senai está reunindo em Lages, na Serra catarinense, 190 participantes de 21 municípios de Santa Catarina. Eles disputam 40 modalidades da etapa estadual da competição. O objetivo principal é fazer com que os alunos desenvolvam atividades relacionadas às profissões que escolheram seguir.
De acordo com a regras, os competidores têm pouco mais 20h pra executarem uma prova proposta no regulamento. O tempo varia de acordo com cada modalidade, assim como a tarefa.
Um dos participantes é Roger Rosa, aluno do curso técnico em Mecânica do Senai de Lages. Ele conta que dedicou oito horas por dia, durante cinco meses, para se dedicar à Olimpíada. Apesar do nervosismo, por ser a primeira vez que participa, ele garante que está preparado pra representar unidade da cidade sede.
Os visitantes acompanham pelos corredores do Senai o desenvolvimento das provas. Até sexta-feira, 8,5 mil alunos de escolas da região devem passar pelo evento. 1,5 mil estudantes de unidades do Senai também irão conferir a edição da Olímpiada do Conhecimento, em Lages. Além das provas, o Senai oferece informações sobre os cursos e palestras.
Um destaque do evento é a mostra Inova, com exposições de 13 projetos desenvolvidos por alunos e professores. Um dos projetos que mais chama atenção é o carro elétrico, desenvolvido pelos estudantes de Jaraguá do Sul. Informações podem ser obtidas pelo telefone 0800 48 1212.

Voltei. (Sim, kibei isto do Tio Rei).

Iniciativas assim são como as "peneiras" das escolinhas de futebol. É daí que vão sair os craques da atividade técnica e científica. É daí que sairão os pathfinders, os que abrirão picadas inovadoras na selva selvaggia do conhecimento científico. Esse é um excelente trabalho de base.

Na Alemanha, quase 60% dos alunos do segundo grau (Ensino Médio é o cacete, sou velho mesmo!) vão em busca de cursos técnicos. Cá em Bananaland, não chegamos a 11%. Por que? Por puríssimas afetação e vaidade.

Podem sair pela aí conversando com pais e mães. A esmagadora maioria inflará as ventas e dirá com orgulho: "Eu não quero que meu filho seja técnico. Isso é degradante". O sonho dourado dos pais é que seus filhos enveredem por caminhos profissionais mais clássicos como Direito, Engenharia, Medicina (e vejam que as duas últimas deste exemplo são atividades extremamente técnicas e, às vezes, bem "mão na massa"), ou sendas mais "moderninhas" como Administração, Jornalismo, Marketing, Psicologia (não clínica, pelamordedeus, mas "voltada para RH") e - oh, glória! - Mídias Sociais (xôxo mídia pros íntimos).

Claro que não podia deixar de citar os pais que almejam para seus filhos a tumba profissional do serviço público. Sobre esses (e seus filhos que acodem ávida e alegremente aos concursos públicos) nem vou tecer comentários. Merecem meu silêncio.

Em resumo, os pais querem que seus filhos sejam "doutores de anel no dedo" (ainda que mal e porcamente remunerados no mercado de trabalho). Estamos em 2013, e estou fazendo a mesma crítica que o Bruxo do Cosme Velho (Google it!) e o argutíssimo Lima Barreto faziam em meados do século XIX e nos albores do século XX. Não avançamos nada em termos de projeto de civilização.

A minha crítica não vai para os profissionais que nutrem e desenvolvem seu talento nas diversas áreas (técnicas ou não), que têm um casamento de sucesso com suas carreiras por amarem o que fazem. Estou esculachando, sim, aqueles que, mesmo sem pendor algum para as atividades "suaves", as buscam para fugir das "minas de sal" nas quais, talvez, lograssem muito êxito. O esculacho é para aqueles que acham que "canudo" resolve tudo e "dá status". Cago em vossas cabeças.

Os alemães estão aí para nos desferir VOLEIOS NA NUCA, mostrando que essa aversão à atividade técnica é uma rematada estultícia. O que interessa é a felicidade e a satisfação oriundas da paixão pela profissão e, more importantly, dinheirinho no bolso.

Para concluir, leitora, essa Olimpíada do Conhecimento do Senai dá a chance de que guris e gurias exalem a água benta do suor na testa e arregacem as mangas para se tornarem criativos, inventivos, felizes e ajudarem a lançar cada vez mais as bases de um desenvolvimento econômico significativo para este ainda banânico país.

O Conto dos Dois Tomates



Depois do furor sobre os produtos transgênicos cerca de uma década atrás, me peguei pensando sobre os "organismos geneticamente modificados" (OGMs, ou, no popular, transgênicos) quando passei em frente da pet shop da minha rua e prestei atenção no "T" preto dentro de um triângulo amarelo (ícone que indica a presença de transgênicos no produto). Voltei a pesquisar o assunto na "internê" e, nas duas primeiras, duas coisas me ocorreram: o enorme potencial da biotecnologia para melhorar os alimentos e o debate incrivelmente rancoroso em torno desses alimentos. Se minha (parca) disciplina e meu extenuante trabalho permitirem, pretendo, nas próximas semanas, me aprofundar bastante na polêmica que envolve os transgênicos. Hoje começo falando sobre alguns temores específicos e sobre a oposição enfrentada pelos alimentos criados pela bioengenharia.

Vou pegar "à unha" esses temores e essa oposição nas próximas semanas e examinar o que eles revelam sobre o movimento contrários aos OGMs. Mas antes de mergulhar nessas águas pantanosas, vamos refletir por alguns instantes para não perder o céu de vista enquanto estamos atolados no lamaçal das paixões argumentativas.

Começo dizendo que está bastante claro que os alimentos criados pela bioengenharia já lograram um êxito estrondoso. A biotecnologia tem sido usada para ajudar os agricultores a aumentar o rendimento de suas plantações e acrescentar vitaminas e minerais aos alimentos. Os avanços da biotecnologia também têm auxiliado na luta contra o inimigo número um das lavouras (as pragas), além de serem usados também para diversão e estética (basta ver o caso dos peixes fluorescentes e das rosas azuis). As lavouras de bioengenharia passaram a ser a tecnologia agrícola mais adotada da história da humanidade, e tudo isso foi feito em menos de duas décadas.

Mas isso significa que eu sou um defensor figadal dos transgênicos?

Vou contar a vocês a história de dois tomates: o Indigo Rose e o "tomate roxo". Ambos foram inventados para produzir um nutriente chamado antocianina, um nutriente normalmente encontrado em frutas como, por exemplo, a amora. Um deles (o Indigo Rose) foi criado pelo antiquíssimo método da hibridação. O outro (tomate roxo) foi inventado pela moderna técnica da engenharia genética, transferindo genes da boca-de-leão (Antirrhinum majus) para ajudar o tomate a produzir a antocianina. Em em ambos os casos, a idéia era criar um tomate que reunisse todos os benefícios do tomate à saúde com os benefícios nutricionais extras da ingestão de amoras, por exemplo. Ambos foram muito bem-sucedidos.

Então, como consumidor de tomates, qual eu escolheria? O tomate roxo se mantém fresco por muito mais tempo, ou seja, é possível deixá-lo amadurecer e desenvolver sabor na planta por um período mais longo. Por outro lado, o Indigo Rose é muito saboroso e ótimo para ser plantado em jardins. Ambos têm a antocianina, que lhes aporta uma coloração profunda e escura, e ambos têm um aspecto suculento e convidtivo. Se eu tivesse que decidir qual deles comprar, minha escolha seria fundamentada num leque amplo de fatores, como paladar, marca, frescor, tamanho, valor nutricional, facilidade de encontrar e preço. A variedade engendrada pela biotecnologia não seria necessariamente melhor, assim como a variedade híbrida. Eu escolheria a que fosse melhor para mim. E se eu achasse que uma era superior à outra, seguramente não defenderia que a outra fosse proibida ou impedida de chegar a qualquer país.

Sabem por que eu não faria isso? Porque sou um defensor empedernido do ser humano.

Quero que as pessoas tenham a liberdade de inventar, desenvolver, cultivar, vender e comprar qualquer alimento que melhore suas vidas. Às vezes isso implica dar tiros no escuro e procurar variações genéticas nunca dantes exploradas. Outras vezes, isso implica realizar uma hibiridação meticulosa do trigo para criar uma variedade robusta ou inserir na banana um gene que aporte resistência a doenças. Cientificamente falando, esses métodos de bio-inovação devem ser julgados com base no fato de melhorarem, prolongarem ou tornarem a vida das pessoas mais feliz; do ponto de vista político, eles devem ser julgados à luz da infração ou não de direitos de propriedade.

Por exemplo, talvez a engenharia genética nem sempre seja a melhor ferramenta para essa tarefa, cientificamente falando. Ela é, por natureza, uma ferramenta muito precisa. Estou falando de transferir ou retirar genes específicos que determinam características específicas. Se eu quiser, por exemplo, mudar a cor de uma rosa, essa pode ser a ferramenta ideal. Mas se eu quiser fazer brócolos resistentes ao calor, provavelmente a engenharia genética não ajude tanto, pois a resistência ao calor é, provavelmente, controlada por um número considerável de genes. Nesse caso, a hibridação pode ser a melhor opção. Se eu preciso derrubar uma parede, não vou atrás de uma lixadeira. Uma marreta seria uma solução mais "elegante".

O objetivo que a engenharia genética pretende atingir é melhorar os alimentos e, por via de conseqüência, as nossas vidas. Essa é uma finalidade digna.

Pelo que tenho visto, a engenharia genética é uma excelente ferramenta que está disponível na caixa de ferramentas identificada como “aprimoramento alimentar”. Do ponto de vista político, é uma ferramenta que os agricultores devem ter o direito de usar da maneira que julgarem conveniente, desde que - é claro - os direitos de propriedade de terceiros sejam respeitados. Se os alimentos geneticamente modificados são úteis para as pessoas ou se são algo que os consumidores querem comprar e preparar no jantar, cabe exclusivamente a elas decidir. Ou pelo menos deveria caber, por motivos que eu apresentarei em artigos futuros.